Como jogar na grama: aula em 52 minutos
Por José Nilton Dalcim
25 de junho de 2017 às 09:48

Se alguém quiser saber qual a forma mais indicada para atuar sobre uma quadra de grama, já tem um vídeo-aula à disposição. Basta prestar atenção aos 52 minutos da final de Halle.

Nessas imagens, um professor de 35 anos e 10 meses utiliza os mais variados efeitos e recursos, do saque reto ao slice profundo, da deixadinha milimétrica ao saque-voleio clássico, tudo com notável trabalho de pernas, único recurso capaz de permitir se golpear sempre na subida e assim evitar que a bola fique baixa demais ou desvie.

Roger Federer, que vinha com altos e baixos na semana, guardou seu melhor para o domingo. Depois de dominar com tamanha qualidade Alexander Zverev, 15 anos mais jovem, é impossível não lhe conferir o favoritismo para Wimbledon.

Confesso que me surpreendi quando o suíço venceu o sorteio e escolheu receber. Mas isso se provaria fundamental para a partida, porque Federer fez um primeiro game estonteante, com jogadas de incríveis precisão e variação. Manteve o ritmo e fechou seu saque. E aí Zverev se perdeu. Passou a errar tudo e só ganhou um game quando já estava 4/0.

A exibição teria sido perfeita se Roger não permitisse um break-point no game inicial do segundo set. Foi a única chance de Zverev, mas a porta se fechou rapidamente. O pequeno equilíbrio acabou no sexto game, com outra bateria de golpes notáveis, e Federer se deu ao luxo de completar a vitória com saque-voleios que deixariam qualquer Boris Becker sorridente.

O resto são números. E que números. Troféu de número 92, a apenas dois de Ivan Lendl; nove conquistas em 13 tentativas em Halle; quatro títulos em quatro finais na temporada. Está é verdade quase 2.400 pontos atrás de Rafa Nadal no ranking da temporada e será preciso uma grande campanha em Wimbledon para se manter na luta pelo número 1 ao fim de 2017.

Depois deste domingo de gala, isso parece bem menos impossível.

Mais tarde, volto com as finais de duplas e detalhes do fim de semana.

Primeiras impressões
Por José Nilton Dalcim
23 de junho de 2017 às 17:36

Os ATP 500 da grama mostram alguns nomes que precisaremos observar quando Wimbledon chegar, dentro de 10 dias. Além é claro de Roger Federer, evidencia-se a adaptação sempre boa de Richard Gasquet, Grigor Dimitrov e Feliciano López ao piso natural do tênis.

Grama é um lugar que geralmente requer experiência e favorece os mais rodados no circuito. Queen’s deixa isso bem claro. Dos quatro semifinalistas, dois são antigos campeões (Dimitrov e Marin Cilic) e os outros estão embalados: López, vice em Stuttgart, e Gilles Muller, que faturou na Holanda.

Daí seja saboroso o fato de termos dois garotos nas semifinais desses ATP 500. Se o russo Karen Khachanov se favoreceu da contusão de Kei Nishikori, o alemão Alexander Zverev já tem currículo no piso. Aliás, pode ser o primeiro tenista da temporada a somar troféus em três superfícies distintas.

Os dois garotos se misturam a um festival de ‘trintões’, que novamente justificam a regra da maior experiência. Temos Federer, perto dos 36, e Gasquet, que acabou de completar 31, em Halle mas também os canhotos Muller, 34, e López, 35, em Londres. Como se vê, média bem alta.

Vale ressaltar a notável eficiência de Cilic até agora: em três jogos, perdeu apenas seis pontos quando acertou o primeiro saque. Ao menos por enquanto, somando-se tantas surpresas na semana, tudo indica que teremos em Wimbledon um Grand Slam bem imprevisível.

– Bia Haddad perdeu incrível chance de derrotar a top 50 Mona Barthel no fortíssimo quali de Eastbourne, em que todas as 12 cabeças de chave estão entre as 90 do ranking e a principal inscrita é 29ª. Bia teve 6/3 e sacou com 5/1 e 5/3 no segundo set e com 5/4 no terceiro. Apesar da dura derrota, fica claro que, se tiver sorte na formação da chave, a canhota paulista pode passar rodadas em Wimbledon.

– Thomaz Bellucci anunciou o segundo rompimento com o técnico João Zwetsch e diz que vai seguir sozinho por algum tempo. Me pergunto o quanto as recentes derrotas para Thiago Monteiro pesaram no clima.

– O britânico Daniel Evans foi testado positivo em abril, durante Barcelona, pelo uso de cocaína, droga de caráter social que não costuma influir no rendimento esportivo. Está suspenso e fora de Wimbledon, aguardando a pena que pode chegar a dois anos.

Dia australiano
Por José Nilton Dalcim
20 de junho de 2017 às 19:29

A Austrália já foi uma potência no tênis, ainda mais quando se fala em quadras de grama. Esse passado tão rico de troféus pôde ser relembrado nesta terça-feira com dois feitos da nova geração. Jordan Thompson, 23 anos, e Tanasi Kokkinakis, de 21, eliminaram justamente os dois finalistas do Queen’s Club do ano passado.

Thompson talvez seja até mais surpreendente, ainda que seja um jogador em evolução. Está longe de ser um gigante das quadras, com 1,83m, e apesar do saque afiado é um jogador que gosta mais de trabalhar no fundo de quadra. E foi justamente ali que ele derrotou o pentacampeão Andy Murray. Firme nas trocas, muito veloz para defender, inteligente para contraatacar.

Kokkinakis é 13 centímetros mais alto e sempre se mostrou um tremendo sacador, ainda que se mexa mal no fundo e seja inconsistente. Não obteve um único break-point, mas ganhou os dois tiebreaks disputados contra Milos Raonic, sua primeira vitória sobre um top 10. Todo mundo sabe que o garoto passou maus bocados depois da cirurgia no ombro no final de 2015 que o tirou do circuito praticamente por 19 meses, somando-se ainda a dois estiramentos musculares sérios, o mais recente no abdômen.

Se para Raonic a temporada é de altos e baixos, mas com algumas campanhas dignas, para Murray a derrota inesperada é uma ducha gelada, justamente quando ele vinha de um Roland Garros decente e animador. Esperava-se que a volta à grama lhe trouxesse de volta a confiança, porém o que vimos foi novamente um escocês cheio de dúvidas, preso no fundo de quadra vitimado por um forehand pouco produtivo.

Murray será o cabeça 1 em Wimbledon e terá de fazer uma campanha idêntica a Rafael Nadal para não perder a liderança, já que os dois começarão o Grand Slam separados por míseros 105 pontos, ao retirarmos os 2 mil que o escocês tem de defender. A perda da liderança parece cada vez mais uma questão de tempo. Até aqui, Murray somou menos da metade dos pontos de Roger Federer (1.930 a 4.090) e 29% do que Rafa acumulou desde janeiro (6.915).

E por falar em Federer, uma vitória rotineira na estreia de Halle. Sacou bem, se mostrou firme na base e dominou como quis o japonês Yuichi Sugita, que não tem cacoete para a grama. Agora, vem um teste dos bons: o canhoto e voleador Mischa Zverev, que acaba de entrar para o top 30. A vitória tem importância dobrada, já que poderá dar ao suíço a condição de cabeça 4 em Wimbledon, derrubando Stan Wawrinka, segundo projeções do ‘ranking da grama’.

Stan, aliás, teve a dificuldade imaginada contra Feliciano López. Não jogou de todo mal, mas ficou claro que depende demais do primeiro saque na grama. A devolução não funcionou jamais e foram poucas as tentativas de fazer voleios improvisados. Não sei se Paul Annacone conseguirá corrigir isso em duas semanas. Não entendi o motivo de ele usar tão pouco o slice, um golpe valioso nesse piso.

Nos torneios femininos, vimos a queda de Bia Haddad para uma esperta Shelby Rogers. A brasileira fez um bom primeiro set, muito firme no saque e bem agressiva, e deu um mínimo vacilo no tiebreak. A americana tem predicados na grama, com serviço e golpes com pouco efeito e muito bem colocados. Boa experiência para Wimbledon. E que o sorteio nos ajude.

Já o retorno de Vika Azarenka vinha bem no primeiro set, mas esbarrou em alguns erros e agora ela está à beira da derrota diante de Risa Osaki, que vai sacar para fechar o placar nesta quarta-feira. Claro que a grama nunca é o piso ideal para um retorno, ainda mais tão longo, pela dificuldade em se achar o ritmo ideal. Vika precisa de paciência.