Arquivo da tag: Andy Murray

Dia australiano
Por José Nilton Dalcim
20 de junho de 2017 às 19:29

A Austrália já foi uma potência no tênis, ainda mais quando se fala em quadras de grama. Esse passado tão rico de troféus pôde ser relembrado nesta terça-feira com dois feitos da nova geração. Jordan Thompson, 23 anos, e Tanasi Kokkinakis, de 21, eliminaram justamente os dois finalistas do Queen’s Club do ano passado.

Thompson talvez seja até mais surpreendente, ainda que seja um jogador em evolução. Está longe de ser um gigante das quadras, com 1,83m, e apesar do saque afiado é um jogador que gosta mais de trabalhar no fundo de quadra. E foi justamente ali que ele derrotou o pentacampeão Andy Murray. Firme nas trocas, muito veloz para defender, inteligente para contraatacar.

Kokkinakis é 13 centímetros mais alto e sempre se mostrou um tremendo sacador, ainda que se mexa mal no fundo e seja inconsistente. Não obteve um único break-point, mas ganhou os dois tiebreaks disputados contra Milos Raonic, sua primeira vitória sobre um top 10. Todo mundo sabe que o garoto passou maus bocados depois da cirurgia no ombro no final de 2015 que o tirou do circuito praticamente por 19 meses, somando-se ainda a dois estiramentos musculares sérios, o mais recente no abdômen.

Se para Raonic a temporada é de altos e baixos, mas com algumas campanhas dignas, para Murray a derrota inesperada é uma ducha gelada, justamente quando ele vinha de um Roland Garros decente e animador. Esperava-se que a volta à grama lhe trouxesse de volta a confiança, porém o que vimos foi novamente um escocês cheio de dúvidas, preso no fundo de quadra vitimado por um forehand pouco produtivo.

Murray será o cabeça 1 em Wimbledon e terá de fazer uma campanha idêntica a Rafael Nadal para não perder a liderança, já que os dois começarão o Grand Slam separados por míseros 105 pontos, ao retirarmos os 2 mil que o escocês tem de defender. A perda da liderança parece cada vez mais uma questão de tempo. Até aqui, Murray somou menos da metade dos pontos de Roger Federer (1.930 a 4.090) e 29% do que Rafa acumulou desde janeiro (6.915).

E por falar em Federer, uma vitória rotineira na estreia de Halle. Sacou bem, se mostrou firme na base e dominou como quis o japonês Yuichi Sugita, que não tem cacoete para a grama. Agora, vem um teste dos bons: o canhoto e voleador Mischa Zverev, que acaba de entrar para o top 30. A vitória tem importância dobrada, já que poderá dar ao suíço a condição de cabeça 4 em Wimbledon, derrubando Stan Wawrinka, segundo projeções do ‘ranking da grama’.

Stan, aliás, teve a dificuldade imaginada contra Feliciano López. Não jogou de todo mal, mas ficou claro que depende demais do primeiro saque na grama. A devolução não funcionou jamais e foram poucas as tentativas de fazer voleios improvisados. Não sei se Paul Annacone conseguirá corrigir isso em duas semanas. Não entendi o motivo de ele usar tão pouco o slice, um golpe valioso nesse piso.

Nos torneios femininos, vimos a queda de Bia Haddad para uma esperta Shelby Rogers. A brasileira fez um bom primeiro set, muito firme no saque e bem agressiva, e deu um mínimo vacilo no tiebreak. A americana tem predicados na grama, com serviço e golpes com pouco efeito e muito bem colocados. Boa experiência para Wimbledon. E que o sorteio nos ajude.

Já o retorno de Vika Azarenka vinha bem no primeiro set, mas esbarrou em alguns erros e agora ela está à beira da derrota diante de Risa Osaki, que vai sacar para fechar o placar nesta quarta-feira. Claro que a grama nunca é o piso ideal para um retorno, ainda mais tão longo, pela dificuldade em se achar o ritmo ideal. Vika precisa de paciência.

De olho em Wimbledon
Por José Nilton Dalcim
18 de junho de 2017 às 19:35

O tênis brasileiro vai com tudo para Wimbledon. Nas duplas, é claro. Marcelo Melo e Bruno Soares conquistaram títulos logo na abertura da temporada de grama e têm de estar na lista de favoritos. Vale lembrar que o Brasil não conquista um troféu em Wimbledon entre os adultos desde 1966.

Melo já esteve bem perto de realizar seu maior sonho, quando chegou à final em 2013. Agora, lidera o ranking da temporada ao lado de Lukasz Kubot com títulos em todos os pisos – este foi seu primeiro na grama – e os dois vão para mais um teste em Halle para chegarem prontinhos no All England Club.

Bruno, ao contrário, já tem quatro triunfos no piso natural do tênis e atingiu as quartas de Wimbledon nas três últimas temporadas. Jogar ao lado do canhoto Jamie Murray e automaticamente da torcida é um trunfo. O escocês foi vice de Wimbledon em 2015. A dupla se testa nesta semana em Queen’s.

Como terceiro do ranking individual, Melo tem grande chance de sair como cabeça 2 em Wimbledon e aí teremos de torcer para que Bruno vá para o outro lado da chave.

Em simples, os dois primeiros torneios na grama trouxeram uma boa surpresa: Lucas Pouille usou um poderoso misto de ótimo saque – fez 29 aces na final -, excelentos voleios e um sólido jogo de base para conquistar Stuttgart. Ainda não é um tenista totalmente confiável em função de baixas repentinas, porém tem se mantido no top 20 desde setembro.

ATP 500
Depois da decepção em Stuttgart, Roger Federer precisa mostrar serviço em Halle para demonstrar que a tática de saltar o saibro foi mesmo válida. A derrota contra Tommy Haas em Stuttgart não deveria ter acontecido, já que liderava a partida, mas a grama é traiçoeira e talvez seja o piso que menos permita deslizes.

Federer terá bons desafios em Halle. Começa com o experiente Yen-Hsun Lu, deve seguir com o perigoso Mischa Zverev até chegar em Pouille. A semi poderá ser diante de Kei Nishikori. O outro lado tem Dominic Thiem de cabeça 2, Alexander Zverev com boa chance e especialistas como Haas e Bernard Tomic. Pode acontecer qualquer coisa.

Muita expectativa também em cima de Andy Murray em Queen’s. Ele volta a seu melhor piso ligeiramente recuperado depois da campanha em Roland Garros. No entanto, há a eterna pressão de jogar em casa e ainda terá de se esforçar diante de Sam Querrey, Gilles Muller ou Jo-Wilfried Tsonga, sem falar numa semi contra Nick Kyrgios ou Marin Cilic. Aliás, o croata terá John Isner logo na primeira rodada!

Stan Wawrinka contratou Paul Annacone para ajudá-lo a se adaptar à grama e estreia logo contra Feliciano López. Mau negócio. Se embalar, pode ter Tomas Berdych nas quartas e uma semi diante de MilosRaonic ou Grigor Dimitrov. Sem dúvida, excelentes testes.

Futuro
O excepcional trabalho de base do tênis canadense mostra novamente resultados. Neste domingo, Denis Shapovalov, canhoto que bate backhand de uma mão, passou o quali de Queen’s com seus tenros 18 anos, enquanto o incrível Felix Auger-Aliassime foi campeão do challenger de Lyon aos 16 anos, saltando para perto do 230º posto do ranking. Garimpar talentos e oferecer oportunidades resulta nisso.

P.S.: Graças a um esforço notável de Bruna Dalcim, o Blog volta ao ar. Peço desculpas pelo inconveniente. Observem que foi necessária a troca de domínio e de servidor: o Blog agora está como ‘www.blogdotenisbrasil.com’. Vamos em frente!

Mais um suíço no caminho de Nadal
Por José Nilton Dalcim
9 de junho de 2017 às 16:54

Pela experiência, ousadia e capacidade técnica inquestionável, era um tanto óbvio que o único tenista com condições de oferecer resistência e colocar alguma dúvida sobre o 10º título de Rafael Nadal em Roland Garros era Stan Wawrinka.

Então teremos a meu ver a melhor final possível para o Grand Slam da terra. Que, ainda por cima, irá valer o número 2 do ranking para o vencedor. Se isso não é lá novidade para Nadal, duvido que não seja uma surpresa até para ele próprio se pensarmos lá no começo da temporada, em que pouco se apostava em uma nova reação do espanhol.

Wawrinka por seu lado tem uma oportunidade única na carreira. Além do ranking inédito, poderá chegar ao quarto Grand Slam – o terceiro depois dos 30 anos, algo que nem Roger Federer conseguiu até agora – e principalmente se tornar o único a derrotar Nadal numa final em Paris. Seria uma das maiores façanhas da Era Profissional.

Os finalistas passaram por esforços antagônicos nesta sexta-feira. Wawrinka liderou o primeiro set e teve chance de ganhar o tiebreak antes de reagir na segunda parcial. Mas até então o jogo estava bem morno, com muitos erros e más escolhas. O jogo começou a esquentar no terceiro set menos pela qualidade e mais pela alternância. De novo, o suíço abriu vantagem (3/0, 4/2) e não capitalizou.

Ou seja, uma partida que poderia estar 3 sets a 0 para ele de repente foi para um perigoso quarto set. Foi o momento de melhor nível do jogo. Tenso, equilibrado, ótimos lances, nenhum break-point. Então ressurgiu o Stanimal. A partir do oitavo ponto do tiebreak, foi aquele suílo espetacular a ponto de sufocar o número 1, que só conseguiu mesmo escapar do ‘pneu’. O esforço físico e mental durou 4h35.

Nadal, ao contrário, justificou a esperada soberania sobre Dominic Thiem, e com sobras. O austríaco cometeu o pecado mortal de não aproveitar um raro início sonolento do espanhol. Desperdiçou a quebra obtida no primeiro game, jogou fora dois 15-40 seguidos e aí é pedir demais. Nadal ganhou confiança pouco a pouco, fez o adversário jogar o tempo inteiro e raramente deu novas brechas, com exceção a dois break-points no comecinho do segundo set.

Thiem começou jogando perto da linha, tanto na devolução como nas trocas, mas não achou o caminho, um tanto afoito. Aí recuou e tentou entrar mais nos pontos, porém a necessidade de definir os lances rapidamente o levou a buscar as linhas em demasia. E sem a confiança essencial, isso é tarefa quase impossível, ainda mais contra Nadal. Seu backhand, ainda pouco sólido, foi surrado.

O que pode fazer Wawrinka de diferente se tem uma postura tática e técnica um tanto semelhante a Thiem? Ah, muito. Antes de qualquer coisa, o backhand é muito mais consistente e pode explorar a paralela, algo que o austríaco raramente conseguiu hoje. E provavelmente não baixará a cabeça como Thiem fez tão cedo na partida.

Ainda assim, mais descansado, Nadal entrará como o grande favorito, apoiado no largo histórico de 15 a 3 no geral e de 5 a 1 no saibro. Será que dá tempo de construir a estátua e deixá-la pronta para inaugurar em 48 horas?