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Injustiça
Por José Nilton Dalcim
8 de agosto de 2017 às 23:54

É bem raro alguém perder sem merecer no tênis, mas acho que esse foi o caso de hoje na partida em que Rogerinho Silva foi eliminado logo na estreia de Montréal – seu primeiro Masters 1000 – para a sensação canadense Denis Shapovalov. E digo isso sem qualquer patriotismo. Bom, talvez tenha havido patriotismo sim, mas dos canadenses.

Saído de longas semanas no saibro, viajando às pressas para o Canadá, Rogerinho ainda achou o tempo perfeito da quadra sintética lenta e jogou três sets de excelente nível, diante de um adversário 15 anos mais jovem, totalmente apoiado pela torcida, no seu piso predileto e muito bem adaptado às condições.

O ponto essencial no entanto foi o erro do juiz de linha (e talvez do árbitro de cadeira), ao não ver que a bola de Shapovalov havia saído no fundo de quadra durante a troca de bolas que daria um quinto match point ao brasileiro no tiebreak do segundo set. O próprio público chegou a dar um “ohhh” no momento, mas Rogerinho acabou pegando de bate pronto e provavelmente não teve certeza suficiente para interromper o lance e pedir o desafio.

Imagino a frustração de Rogerinho quando soube da imagem que a própria TV canadense mostrou logo depois desse ponto, anotando que a bola havia saído por pelo menos dois dedos. Em seguida, cometeu dupla falta e perdeu o set. E antes que qualquer um condene o brasileiro por ter perdido os quatro match points anteriores, todo mérito tem de ser dado a Shapovalov, que foi incrivelmente valente nessa hora e acertou ace, voleio e até um backhand na paralela que raramente vinha conseguindo na partida.

No resto, só se pode tecer elogios ao paulista de 33 anos, que poderia atingir o top 60 com a vitória. Jogou solto, correu muito, bateu incríveis bolas do fundo, exibiu um backhand de uma mão muito mais eficiente e consistente do que o do adversário. Shapovalov sem dúvida tem grande potencial, embora eu o veja exagerando demais na postura agressiva, algo como se sentisse a obrigação de ganhar todos os pontos e fazer lances bonitos. Se consertar isso, a ascensão ao top 50 será inevitável e rápida.

Sua vitória na primeira rodada sela uma participação animadora da nova geração, que avançou com Borna Coric, Ernesto Escobedo, Heyon Chung e Jared Donaldson. As decepções foram poucas. A maior delas de Frances Tiafoe. Curiosamente, o comandante maior do trabalho de renovação da USTA, o espanhol Jose Higueras, afirmou neste fim de semana que considera Tiafoe o mais atlético e o de maior potencial dos garotos americanos, o que concordo totalmente. Vale observar que Donaldson já está nas oitavas depois de tirar Lucas Pouille e Benoit Paire.

E que mancada dos organizadores ao não promover a estreia de Roger Federer nesta terça-feira de aniversário. Diante de um oponente que teoricamente oferecerá pouca chance de surpresa, seria o clima perfeito para uma festa. A menos que eles tenham achado muito pouco simpático preparar o bolo como se dessem como certa a derrota do local Peter Polansky.

Quase perfeito
Por José Nilton Dalcim
16 de abril de 2017 às 22:36

Faltou manter mais dois serviços, ou então aproveitar a quebra no primeiro ponto do tiebreak. Muito pouco. Thomaz Bellucci encerrou sua inesperada participação no saibro de Houston com o vice. Poderia mais, sem dúvida, mas ninguém pode se queixar do seu físico ou de seu empenho.

Vindo da altitude do Equador, com mínimas horas de bate bola em Houston, Bellucci jogou cinco dias consecutivos, venceu quatro jogos em três sets, passou mais de 10 horas em quadra e ainda estava inteiro para um terceiro set duríssimo na final. Escapou de situações delicadas, virou sets que pareciam perdidos, manteve a cabeça fria, acertou na tática, raramente se mostrou aquele jogador apressado e ansioso que nos incomoda.

A derrota na final para Steve Johnson foi coisa de detalhe. Novamente, reagiu após perder o set inicial e teve a quebra na frente no terceiro set até o oitavo game. O norte-americano virou para 5/4, mas o brasileiro não se assustou e levou ao tiebreak. Talvez sua maior falha tenha sido se perturbar com a suposta crise de cãimbra do adversário, que sumiu do nada na hora do tiebreak. Coisas do tênis.

Campeões
O final de semana também teve a conquista de duplas de Bia Haddad no WTA de Bogotá. Um resultado que não significa muito para sua carreira, já que seu foco é total nas simples, mas que certamente ajuda o bolso e acima de tudo a confiança. Sem falar que até mesmo troféus de duplas de primeira linha é coisa pouco comum para o tênis feminino brasileiro. Vale lembrar que Bia disputou seu primeiro torneio no saibro em 2017.

Também muito legal o título do croata Borna Coric no Marrocos, vindo de larga desvantagem no segundo set – o experiente Philipp Kohlschreiber chegou a ter 3/0 antes de somar cinco match-points – e também no terceiro, saindo de 2/4 e vencendo cinco dos seis games decisivos.

Ainda vejo Coric como o menos espetacular da nova geração, comparado a Thiem, Kyrgios ou Zverev, mas ele ganha seu primeiro ATP aos 20 anos e depois de se submeter a cirurgia no joelho esquerdo em setembro, o que o forçou a começar a temporada só em fevereiro.

Monte Carlo
Embora seja o saibro mais lento da temporada europeia, Monte Carlo sempre é visto com grande expectativa porque uma boa campanha no centenário torneio se transforma em grande ânimo e respeito.

Esta edição é ainda mais relevante. Marca o retorno de Andy Murray e Novak Djokovic, tem Rafa Nadal em melhor ritmo e pode mostrar o que Stan Wawrinka ou Dominic Thiem teriam direito a almejar.

O desafio de Nole parece especialmente difícil, com possíveis duelos diante de Pablo Carreño (ou Fabio Fognini) e Thiem (ou David GOffin) antes de Nadal. Mas o próprio espanhol precisa de cuidados com Alexander Zvere e Roberto Bautista. Não acredito que Grigor Dimitrov incomode.

Murray também tem especialistas, porém deveria se sobrepor a Tommy Robredo, Albert Ramos ou Tomas Berdych em condições normais. Ai viria a semi diante de Wawrinka, que é o grande favorito no quadrante que tem Jo-Wilfried Tsonga, Pablo Cuevas e Lucas Pouille.

Todos os favoritos estreiam diretamente na segunda rodada.

Para matar saudades
Por José Nilton Dalcim
26 de março de 2017 às 00:38

Roger Federer e Juan Martin del Potro escreveram deliciosos capítulos do tênis por quatro ou cinco temporadas, com duelos magistrais, disputados, emocionantes. Três anos e meio depois, agora com carreiras reconstruídas, os dois voltarão a duelar ainda na terceira rodada do Masters de Miami.

Quantos jogos incríveis. A final do US Open de 2009 que o então garoto Delpo conseguiu vencer colocou o molho que faltava, mas pouco antes eles já tinham feito uma batalha de arrepiar na semi de Roland Garros. Em 2012 e 2013, pelo menos cinco partidas memoráveis, como a virada espetacular em outra semi de Paris e o 19-17 no set final das Olimpíadas em favor de Federer, os dois títulos de Delpo dentro da Basileia e a suada vitória do suíço no Finals de 2013, que foi o duelo mais recente.

O reencontro de segunda-feira pega os dois em momentos distintos. Federer é o grande destaque do circuito atual, praticando um tênis agressivo de alta qualidade, com backhand afiado como nunca e muito preparo físico. Del Potro iniciou tardiamente a temporada, ainda não embalou, precisou alterar seu plano tático e hoje usa mais slice do que o próprio suíço. O argentino certamente sabe que, se não ousar mais com o backhand batido, terá poucas chances.

Miami é bem diferente de Indian Wells. A umidade sufoca os tenistas e deixa as condições mais lentas. Mas também tem o vento para incomodar e a chuva para esquentar o banco do vestiário. O desafio mental se torna grande. Na parte inferior da chave, onde estão Kei Nishikori e Rafael Nadal, já caíram 10 dos 16 cabeças, entre eles Marin Cilic e Grigor Dimitrov. De nome perigoso mesmo, restou Milos Raonic.

No lado superior da chave, onde estão Federer e Stan Wawrinka, também houve pequenas surpresas, mas o destaque mesmo foi a atuação firme de Borna Coric que tirou a paciência de Dominic Thiem. O croata precisava muito de um resultado de peso para tentar reagir após a cirurgia no joelho e a parada forçada, mas ainda é defensivo demais. Funcionou contra Thiem, que exagerou de novo na força e perdeu a cabeça no final do segundo set.

Além de Federer x Delpo, a terceira rodada promete ainda com Nadal x Philipp Kohlschreiber, Nishikori x Fernando Verdasco e Alexander Zverev x John Isner.

Quadro comparativo
O internauta Lucas Torres Macedo envia um interessante quadro comparativo entre o desempenho dos quatro maiores tenistas do momento e os dois grandes da década de 1990 , que tiveram grandes campanhas em Grand Slam e Masters 1000.

O estudo gera boas reflexões. Segue abaixo:

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