Arquivo da tag: David Ferrer

Domingo especial
Por José Nilton Dalcim
20 de agosto de 2017 às 01:03

É bem verdade que Cincinnati esteve muito esvaziado, com apenas um dos Big 4 – e justamente aquele que menos se destaca em pisos mais velozes -, porém ainda assim é delicioso ver dois tenistas que tantas esperanças já depositamos atingir sua primeira grande final e ficar em condições de levantar um Masters 1000.

Nick Kyrgios e Grigor Dimitrov têm muitos méritos. O australiano pegou uma sequência difícil, cheia de jogadores experientes. O mais animador foi ver como ele dominou a impetuosidade. Mesmo em situação apertadas, como a dura vitória sobre o hiper-sacador Ivo Karlovic; o final de jogo quente em que praticamente todo o estádio estava com Rafael Nadal; e os dois sets exigentes diante de um renovado David Ferrer, o australiano manteve a cabeça firme, atitude positiva.

Mais. Não se perdeu em reclamações inúteis com o árbitro, elogiou toda jogada mais bem feita pelo adversário, cumprimentou todo mundo junto à rede e até voltou a ir até o meio da quadra agradecer o público, algo que vinha evitando fazer. Não dá para dizer ainda que seja um novo Kyrgios, à base de seus dois psicólogos, porém é um caminho bem mais saudável.

Dimitrov também fez uma grande semana, com vitórias sobre Feli López, Juan Martin del Potro e um grande teste mental diante de John Isner. Ganhar dois tiebreaks do gigante, dentro da casa dele, não é para qualquer um. Melhor ainda, o búlgaro soltou golpes precisos em momento de grande pressão, algo que um ano atrás certamente sairia por meio metro. Talvez até mais do que Kyrgios, dado seus três anos de desvantagem, Dimi necessite bem mais do troféu em Cincinnati.

O búlgaro já será 9º do mundo nesta segunda-feira e se aproximará muito de Dominic Thiem se for campeão. Kyrgios volta ao 18º posto – e se garante entre os 16 cabeças do US Open, algo bem valioso – e chegará ao inédito 12º se levantar a taça.  Será o terceiro Masters 1000 consecutivo sem título para o Big 4, algo que jamais aconteceu.

E o fim de semana especial em Cincinnati pode se completar com a ascensão de uma nova número 1 no circuito feminino. Simona Halep atropelou Sloane Stephens no seu melhor estilo e está novamente a uma vitória de atingir a tão sonhada meta. O problema é que a barreira final será a atual campeã de Wimbledon Garbiñe Muguruza, que também sobrou diante da atual campeã Karolina Pliskova.

Halep terá sua quarta chance de atingir a ponta e se transformar em mais uma tenista a virar líder sem jamais ter vencido um Grand Slam. Ela perdeu a oportunidade na final de Roland Garros, nas quartas de Eastbourne e depois nas quartas de Wimbledon. Curiosamente, ela só tem um título na temporada, no Premier de Madri.

Como bem destacado por Mário Sérgio Cruz em TenisBrasil, a segunda-feira já tem novo número 1 em simples masculino (Rafael Nadal), nas duplas masculinas (Henri Kontinen) e nas duplas femininas (Lucie Safarova). Incrível.

Chocante
Por José Nilton Dalcim
11 de agosto de 2017 às 00:39

Denis Shapovalov, aquele que esteve a ponto de ser eliminado na estreia por Rogerinho Silva, exagerando na força e na pressa, conseguiu uma verdadeira façanha na noite desta quinta-feira. Diante de sua torcida, o fenômeno canhoto de 18 anos mostrou cabeça fria, capacidade técnica, apuro tático, ousadia e coração para derrubar nada menos que Rafael Nadal, o postulante ao número 1 do ranking.

E olha que o garoto saiu atrás do placar, ainda que fazendo um bom primeiro set. A partir da quebra que obteve no comecinho da segunda parcial, foi ficando cada vez mais atrevido. Além do primeiro saque bem aplicado, usou o forehand para atacar o tempo inteiro. Ainda perdeu um serviço e permitiu empate, porém nem assim saiu de jogo. O terceiro set foi uma gangorra e o tempo todo quem esteve mais acuado foi o adolescente, que salvou seis break points e ganhou um game emocional de 14 minutos. Admirável.

A partir do sexto game, reta final, jogadores cansados e tensão evidente no ar, os serviços imperaram e o tiebreak foi inevitável. Nadal abriu 3-0, parecia natural que a experiência triunfaria. Mas Rafa cometeu dupla falta, permitiu 3-3 e daí em diante só ganhou mais um ponto. Shapovalov fechou a partida com seu 49º winner, o que justifica plenamente seu feito inesperado.

Ao se ver Shapovalov, Alexander Zverev e Nick Kyrgios em ação, dá uma certa tranquilidade quanto ao futuro do tênis. Bom, o australiano precisa tomar uma decisão urgente quanto a seu problema de quadril, porque essa limitação tem sido cruel e nem toda sua notável habilidade será suficiente sem um físico no máximo potencial.

Zverev, por seu lado, mostra-se cada semana mais consistente, mesclando paciência e agressividade com autoridade de um veterano. O garoto alemão repete agora a final de Washington de dias atrás diante de Kevin Anderson. O sul-africano não perdeu sets em Montréal e deu pouca chance a Sam Querrey.

Há uma impensável chance de termos Shapovalov e Zverev na semifinal, uma dádiva para quem espera mais da nova geração. O canadense encara outra surpresa da semana, o também canhoto Adrian Mannarino, que joga com o peso da bola do adversário.

Susto e talento
Roger Federer por seu lado fez sua pior apresentação da temporada, com incríveis 47 erros diante de David Ferrer, alguns deles bisonhos. Mas sua espetacular versatilidade rende dividentes nessas horas difíceis e o suíço pôde apostar nos voleios para obter a virada.

Apesar de sofrer a 17ª derrota, Ferrer merece elogios pela postura tática. Tentou ser agressivo pegando bola na subida e recuando pouco, devolveu bem, forçou paralelas e abriu buracos no lado direito do adversário. Caiu de pé.

Federer não precisará de muitas adaptações diante de Roberto Bautista, que tem um padrão muito parecido ao de Ferrer e perdeu todos os seis confrontos diante do suíço. Para complicar, ainda lutou três horas duríssimas diante de Gael Monfils.

Se mantiver o favoritismo, Federer terá dois improváveis adversários nas semifinais: Diego Schwartzman ou Robin Haase. O baixinho argentino conseguiu outra incrível virada. Perdeu os oito primeiros games antes de iniciar a reação, conseguindo três quebras no set final. O holandês atropelou Grigor Dimitrov no terceiro set e sempre foi perigoso sobre a quadra dura.

Olha a Stephens
Em seu terceiro torneio da temporada – e desde as Olimpíadas do Rio -, Sloane Stephens é a sensação no Premier de Toronto. Depois de tirar Petra Kvitova, passou com sobras por Angelique Kerber sem perder sets. Seu ranking hoje? Incrível 934º lugar. Ex-número 11 e dona de quatro títulos e uma semifinal na Austrália, ficou 11 meses afastada por séria lesão no pé.

Ela enfrenta agora a canhota Lucie Safarova e quem passar fará semifinal contra Karolina Pliskova ou Carol Wozniacki. Na parte inferior, Elina Svitolina atropelou Venus Williams e encara Garbiñe Muguruza, enquanto Simona Halep e Carolina Garcia se cruzam. A romena continua no calcanhar de Pliskova sonhando com o número 1, mas qualquer chance de luta só virá no US Open.

Velhos guerreiros
Por José Nilton Dalcim
29 de maio de 2017 às 19:22

Nem Rafael Nadal, nem Novak Djokovic. O segundo dia de Roland Garros pertenceu a velhos guerreiros. O heróico Rogerinho Silva, o incansável David Ferrer, o resiliente Victor Estrella e até mesmo o elétrico Fabio Fognini deram um show no saibro francês e mostraram por que jogos de cinco sets são tão empolgantes.

Rogerinho merece destaque mais que especial. Entrou em quadra sem saber como conseguiria encarar o tênis vigoroso e agressivo de Mikhail Youzhny, vindo de torção feia no pé dias atrás. Foi dominado, reagiu e aí voltou a pisar em falso, em lance aliás parecido com Genebra. Até o russo achou que ele iria desistir após jogar muito mal três games, mas Youzhny não conhece esse garoto de 33 anos.

Nem mesmo quando encarou uma quebra logo no começo do quarto set Rogerinho amoleceu. Continuou brigando. Vieram dois match-points no serviço do adversário, dois games muito tensos e a partir do tiebreak foi o brasileiro quem mandou na partida. Fechou após esforço de 4h11 diante de um ex-top 10 com 10 ATPs no currículo. Que espetáculo. Pelo segundo Grand Slam consecutivo, ele marcou uma vitória. Para muitos, pode parecer pouco. Quem conhece sua trajetória, aplaude.

Ferrer vive um de seus piores momentos, beirando a aposentadoria. Mas como luta. Esteve duas vezes atrás do placar contra Donald Young e foi ganhar num set de 24 games, debaixo de garoa. Estrella, 36 anos, nem sequer é jogador de saibro. Anotou virada após dois sets atrás de Teimuraz Gabashvili. E Fognini arrastou multidão para a arquibancada no duelo de gerações diante de Frances Tiafoe. O quinto set diz tudo: 6/0, mil reclamações, palavrões e caretas depois. O público foi à loucura.

E sobre os favoritos? Rafa Nadal fez um segundo set instável contra Benoit Paire e deu sorte quando o francês teve break-point para 5/3. Claro que isso nada mudaria a história final do jogo, que foi um tanto sem graça depois que o francês passou a ter dores abdominais. Como provavelmente não será diferente o duelo contra Robin Haase.

Já a maior atenção na estreia de Nole estava na plateia, um tanto tímido. Andre Agassi foi cumprimentado até por Boris Becker e conversou o tempo todo com o irmão Marko. Na quadra, o cabeça 2 segurou Marcel Granollers no fundo e isso deveria render uma vitória fulminante, mas vimos o sérvio perder cinco dos seus 14 games de serviço. Demonstrou estar irritado com os erros, pareceu reclamar até da camiseta do novo patrocinador. Talvez seja apenas a pressão da estreia. Talvez. Agora, vem João Sousa. Outro jogo que não pode ter sustos.

Longe dos holofotes, o belga David Goffin atropelou Paul-Henri Mathieu e os números chamam a atenção: 37 winners e apenas 10 erros nos três sets. Como eu previra, Fernando Verdasco está sendo um perigoso adversário para Alexander Zverev, que terá de ganhar mais dois sets na retomada desta terça-feira.

A chave feminina teve dois momentos importantes. A estreia exigente da campeã Garbiñe Muguruza, que se saiu muito bem diante de uma adversária que conhece muito bem a Philippe Chatrier. Ainda que cometesse falhas aqui ou ali, a espanhola achou os atalhos para superar Francesca Schiavone. A italiana aliás deu a entender que pode adiar a despedida das quadras para 2018.

Depois das lágrimas de Petra Kvitova, vieram as de Kiki Mladenovic. A mais tarimbada das francesas lutou até o fim apesar de sentir contusão na lombar e de ter ficado uma quebra atrás no terceiro set. Karolina Pliskova avançou contra a chinesa Saisai Zheng, em partida em que sacar valeu pouco.

E Bia Haddad? Pena que demorou a pegar o ritmo, o que deu larga vantagem para a experiente Elena Vesnina. Aos poucos, a canhota parou de ‘rifar’ as bolas, ficou mais consistente e aí deu trabalho à número 15 do ranking. Importante notar a diferença de bola dessas meninas tops: profundas, agressivas, sufocantes. Não é nada fácil jogar num nível tão alto e de tamanha intensidade. Assim, apesar da natural derrota, foi muito bom ver que Bia está bem encaminhada. Dá para acreditar que sua próxima vez em Roland Garros será bem diferente.

P.S.: Com as vitórias de Rogerinho e Thomaz Bellucci e o favoritismo de Thiago Monteiro sobre o convidado francês Alexandre Muller, o tênis brasileiro poderá ter três jogadores numa segunda rodada de Grand Slam pela primeira vez desde Wimbledon de 2003. E em Paris, desde 2002.