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De olho em Wimbledon
Por José Nilton Dalcim
18 de junho de 2017 às 19:35

O tênis brasileiro vai com tudo para Wimbledon. Nas duplas, é claro. Marcelo Melo e Bruno Soares conquistaram títulos logo na abertura da temporada de grama e têm de estar na lista de favoritos. Vale lembrar que o Brasil não conquista um troféu em Wimbledon entre os adultos desde 1966.

Melo já esteve bem perto de realizar seu maior sonho, quando chegou à final em 2013. Agora, lidera o ranking da temporada ao lado de Lukasz Kubot com títulos em todos os pisos – este foi seu primeiro na grama – e os dois vão para mais um teste em Halle para chegarem prontinhos no All England Club.

Bruno, ao contrário, já tem quatro triunfos no piso natural do tênis e atingiu as quartas de Wimbledon nas três últimas temporadas. Jogar ao lado do canhoto Jamie Murray e automaticamente da torcida é um trunfo. O escocês foi vice de Wimbledon em 2015. A dupla se testa nesta semana em Queen’s.

Como terceiro do ranking individual, Melo tem grande chance de sair como cabeça 2 em Wimbledon e aí teremos de torcer para que Bruno vá para o outro lado da chave.

Em simples, os dois primeiros torneios na grama trouxeram uma boa surpresa: Lucas Pouille usou um poderoso misto de ótimo saque – fez 29 aces na final -, excelentos voleios e um sólido jogo de base para conquistar Stuttgart. Ainda não é um tenista totalmente confiável em função de baixas repentinas, porém tem se mantido no top 20 desde setembro.

ATP 500
Depois da decepção em Stuttgart, Roger Federer precisa mostrar serviço em Halle para demonstrar que a tática de saltar o saibro foi mesmo válida. A derrota contra Tommy Haas em Stuttgart não deveria ter acontecido, já que liderava a partida, mas a grama é traiçoeira e talvez seja o piso que menos permita deslizes.

Federer terá bons desafios em Halle. Começa com o experiente Yen-Hsun Lu, deve seguir com o perigoso Mischa Zverev até chegar em Pouille. A semi poderá ser diante de Kei Nishikori. O outro lado tem Dominic Thiem de cabeça 2, Alexander Zverev com boa chance e especialistas como Haas e Bernard Tomic. Pode acontecer qualquer coisa.

Muita expectativa também em cima de Andy Murray em Queen’s. Ele volta a seu melhor piso ligeiramente recuperado depois da campanha em Roland Garros. No entanto, há a eterna pressão de jogar em casa e ainda terá de se esforçar diante de Sam Querrey, Gilles Muller ou Jo-Wilfried Tsonga, sem falar numa semi contra Nick Kyrgios ou Marin Cilic. Aliás, o croata terá John Isner logo na primeira rodada!

Stan Wawrinka contratou Paul Annacone para ajudá-lo a se adaptar à grama e estreia logo contra Feliciano López. Mau negócio. Se embalar, pode ter Tomas Berdych nas quartas e uma semi diante de MilosRaonic ou Grigor Dimitrov. Sem dúvida, excelentes testes.

Futuro
O excepcional trabalho de base do tênis canadense mostra novamente resultados. Neste domingo, Denis Shapovalov, canhoto que bate backhand de uma mão, passou o quali de Queen’s com seus tenros 18 anos, enquanto o incrível Felix Auger-Aliassime foi campeão do challenger de Lyon aos 16 anos, saltando para perto do 230º posto do ranking. Garimpar talentos e oferecer oportunidades resulta nisso.

P.S.: Graças a um esforço notável de Bruna Dalcim, o Blog volta ao ar. Peço desculpas pelo inconveniente. Observem que foi necessária a troca de domínio e de servidor: o Blog agora está como ‘www.blogdotenisbrasil.com’. Vamos em frente!

La Decima a gente nunca esquece
Por José Nilton Dalcim
11 de junho de 2017 às 21:10

Claro que a comemoração tem de ser em cima de uma façanha das mais incríveis da história não do tênis, mas do esporte: 10 troféus num mesmo Grand Slam, 10 conquistas em 13 possíveis, e olha que dessas três houve uma delas em que nem foi realmente derrotado.

Mas o que me fez ficar pensando hoje, depois de vermos Rafael Nadal vencer todos os sets disputados com média de cinco games perdidos por partida em Roland Garros, é como o espanhol se reinventou e se reergueu pela terceira vez em sua carreira.

Não é uma coisa fácil de acontecer no esporte de alto rendimento, considerando-se ainda seu estilo que exige tanta doação em quadra. Nadal repete nesta temporada aquilo que vimos em 2010 e 2013, quando renasceu após passar momentos de descrédito e pressão.

A cada vez, achou um caminho. Ora o saque, ora o slice, ora o backhand, trabalhou nos elementos que poderiam agregar e raramente usou discurso negativo nas frustrações. Cansou de dizer que ainda acreditava que poderia reagir, agradeceu porque haveria uma próxima semana. Duvidaram uma vez, duvidaram duas e duvidaram de novo.

A resposta veio. Encerrou 2016 mais cedo para alongar a pré-temporada, contratou Carlos Moyá. Fez um Australian Open surpreendente, em que esteve a três games de um título improvável, engoliu mais dois vices na quadra sintética e aguardou o retorno ao saibro europeu, seu habitat natural e eterno ganha-pão, para enfim rever a glória. E o fez com superlativos crescentes.

Quando chegou ao 10º título em Monte Carlo e encerrou o jejum, se transformou no favorito natural a Roland Garros, ainda mais diante da crise de Novak Djokovic e da queda de Andy Murray. Mais um 10º em Barcelona, o penta em Madri… Não fosse a derrota nas quartas de Roma em que havia muito de esgotamento, ele teria faturado tudo sobre o saibro, e superado até mesmo a série inacreditável de 2010, quando ganhou Paris e os três Masters do saibro.

‘La Decima’ talvez criasse pressão sobre qualquer outro tenista. Para Rafa, pareceu o tempo todo ser acima de tudo motivação. Disputou cada partida com intensa aplicação tática, correu atrás de bolas difíceis mesmo quando o placar lhe dava folga. Na final deste domingo contra Stan Wawrinka, vibrou com punho cerrado no primeiro ponto do jogo! Não dá para imaginar um tenista mais determinado.

Rafa encerra a primeira metade da temporada com 6.915 pontos em 10 torneios jogados. Isso lhe dá não apenas o direito matemático de lutar pelo número 1 do mundo, quem sabe já ao término de Wimbledon, mas o torna o maior candidato à liderança ao final do calendário. Aproveitou o saibro para abrir quase 3 mil pontos sobre Roger Federer. Soma mais do que Wawrinka e Dominic Thiem juntos.

Guardo para amanhã uma lista dos maiores feitos de Nadal em sua fabulosa carreira. Afinal, é preciso de muito espaço para quantificar o tamanho de seu tênis.

P.S.: Não, não esqueci da extraordinária vitória de Jelena Ostapenko no sábado. Mas deixo aqui o direcionamento para o blog de Mário Sérgio Cruz, que fez um texto completíssimo dessa letã de 20 anos e tanto futuro.

Mais um suíço no caminho de Nadal
Por José Nilton Dalcim
9 de junho de 2017 às 16:54

Pela experiência, ousadia e capacidade técnica inquestionável, era um tanto óbvio que o único tenista com condições de oferecer resistência e colocar alguma dúvida sobre o 10º título de Rafael Nadal em Roland Garros era Stan Wawrinka.

Então teremos a meu ver a melhor final possível para o Grand Slam da terra. Que, ainda por cima, irá valer o número 2 do ranking para o vencedor. Se isso não é lá novidade para Nadal, duvido que não seja uma surpresa até para ele próprio se pensarmos lá no começo da temporada, em que pouco se apostava em uma nova reação do espanhol.

Wawrinka por seu lado tem uma oportunidade única na carreira. Além do ranking inédito, poderá chegar ao quarto Grand Slam – o terceiro depois dos 30 anos, algo que nem Roger Federer conseguiu até agora – e principalmente se tornar o único a derrotar Nadal numa final em Paris. Seria uma das maiores façanhas da Era Profissional.

Os finalistas passaram por esforços antagônicos nesta sexta-feira. Wawrinka liderou o primeiro set e teve chance de ganhar o tiebreak antes de reagir na segunda parcial. Mas até então o jogo estava bem morno, com muitos erros e más escolhas. O jogo começou a esquentar no terceiro set menos pela qualidade e mais pela alternância. De novo, o suíço abriu vantagem (3/0, 4/2) e não capitalizou.

Ou seja, uma partida que poderia estar 3 sets a 0 para ele de repente foi para um perigoso quarto set. Foi o momento de melhor nível do jogo. Tenso, equilibrado, ótimos lances, nenhum break-point. Então ressurgiu o Stanimal. A partir do oitavo ponto do tiebreak, foi aquele suílo espetacular a ponto de sufocar o número 1, que só conseguiu mesmo escapar do ‘pneu’. O esforço físico e mental durou 4h35.

Nadal, ao contrário, justificou a esperada soberania sobre Dominic Thiem, e com sobras. O austríaco cometeu o pecado mortal de não aproveitar um raro início sonolento do espanhol. Desperdiçou a quebra obtida no primeiro game, jogou fora dois 15-40 seguidos e aí é pedir demais. Nadal ganhou confiança pouco a pouco, fez o adversário jogar o tempo inteiro e raramente deu novas brechas, com exceção a dois break-points no comecinho do segundo set.

Thiem começou jogando perto da linha, tanto na devolução como nas trocas, mas não achou o caminho, um tanto afoito. Aí recuou e tentou entrar mais nos pontos, porém a necessidade de definir os lances rapidamente o levou a buscar as linhas em demasia. E sem a confiança essencial, isso é tarefa quase impossível, ainda mais contra Nadal. Seu backhand, ainda pouco sólido, foi surrado.

O que pode fazer Wawrinka de diferente se tem uma postura tática e técnica um tanto semelhante a Thiem? Ah, muito. Antes de qualquer coisa, o backhand é muito mais consistente e pode explorar a paralela, algo que o austríaco raramente conseguiu hoje. E provavelmente não baixará a cabeça como Thiem fez tão cedo na partida.

Ainda assim, mais descansado, Nadal entrará como o grande favorito, apoiado no largo histórico de 15 a 3 no geral e de 5 a 1 no saibro. Será que dá tempo de construir a estátua e deixá-la pronta para inaugurar em 48 horas?