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Ficamos no quase. Com louvor.
Por José Nilton Dalcim
31 de maio de 2017 às 19:53

Por uma hora, deu para acreditar que Thomaz Bellucci e Rogerinho Silva poderiam aprontar façanhas semelhantes aos ‘hermanos’ neste Roland Garros. Mas ficou no quase. Bellucci teve começou excelente e segurou Lucas Pouille até perder o tiebreak do primeiro set. Rogerinho foi ainda mais surpreendente, tirou dois serviços e a série inicial de Milos Raonic antes de se render à experiência e poder de fogo do canadense.

Enquanto isso, Renzo Olivo completou sua incrível vitória sobre Jo-Wilfried Tsonga em plena central com absoluto controle dos nervos, Horacio Zeballos derrubou Ivo Karlovic com vitória em dois tiebreaks e Diego Schwartzman garantiu o direito de desafiar Novak Djokovic na sexta-feira. Sem falar que Juan Martin del Potro pode avançar ainda mais. Dá uma certa inveja, confesso.

Não se pode culpar Bellucci e menos ainda Rogerinho. O canhoto entrou decidido a dominar os pontos e deveria ter levado ao menos um set, já que teve 5/3 e saque. Pouille tem enorme talento e aos poucos se tranquilizou, usou curtas, paralelas e ótimos saques como um digno top 20.

Rogerinho encarou o saque, forçou devoluções e passadas, correu atrás de todos os pontos e perdeu nos detalhes. O final do jogo foi simbólico: Raonic teve paciência para a quebra, com sorte num lance na fita, e em seguida disparou nada menos que quatro aces seguidos.

Mas ainda temos direito de torcer para Thiago Monteiro e a ‘missão (quase) impossível’ frente Gael Monfils, além de nossos duplistas, que têm caminho cada vez mais aberto.

Favoritos
Mais um ‘script’ cumprido por Rafael Nadal. Aliás, tem sido divertido ver suas entrevistas que beiram a mesmice de suas vitórias tranquilas: ‘É um adversário perigoso’, profetiza ele, agora sobre Nikoloz Basilashvili.

Novak Djokovic mostrou gigantesca superioridade sobre João Sousa, mas ainda assim jogou raquete longe e reclamou da vida ainda que tenha cedido meros oito games. Diego Schwartzman é o primeiro adversário mais gabaritado antes de Pouille ou Albert Ramos e enfim Dominic Thiem ou David Goffin. O austríaco continua muito sólido e economizando energia.

No feminino, destaque para a arrasadora derrota de Ekaterina Makarova, que levou de Lesia Tsurenko idênticos 6/2 e 6/2 com que havia batido Angelique Kerber dois dias antes. Com isso, poderemos ter Samantha Stosur ou Mattek-Sands nas quartas.

Enquanto Carol Wozniacki aplicou ‘bicicleta’, Garbiñe Muguruza e Sveta Kuznetsova passaram apertado. Parecia que a atual campeã não ia achar um jeito de dobrar Annet Kontaveit, mas a estoniana amoleceu no terceiro set.

Surpresa acabou sendo a tunisiana Ons Jabeur ao despachar Dominika Cibulkova. Aos 22 anos e 114ª do ranking, Jabeur ganhou o juvenil de Roland Garros em 2011.

A quinta-feira
– Monteiro, que completou nesta quarta 23 anos, enfrentará o terceiro francês em seus três jogos de Slam (Tsonga e Muller os outros). Monfils acabou de completar 400 vitórias de primeira linha, 86 delas em Slam, mas esta foi sua primeira no saibro em toda a temporada.
– Klizan, o adversário de Murray, encerrou uma triste série de seis derrotas consecutivas em Slam. A última vez que o cabeça 1 caiu na segunda rodada de Paris foi com Agassi, em 2000.
– Wawrinka perdeu os dois jogos que fez contra Dolgopolov no saibro e também o mais recente, em Miami-2014.
– Nishikori e Chardy farão o oitavo duelo direto, com placar de 5-2 para o japonês. Em sete participações no torneio, Nishikori só ganhou 12 jogos.
– Del Potro venceu três dos quatro jogos feitos contra Almagro. O único sobre o saibro foi um challenger em 2006 e vencido pelo espanhol. Os dois têm histórico em Paris: Delpo chegou à semi e Almagro, três vezes às quartas.
– Trinta jogadores acima de 30 anos chegaram à segunda rodada de Roland Garros, três a mais do que em 2016. É recorde em Slam.
– Dos 19 franceses que iniciram o torneio, apenas seis passaram da estreia, pior marca desde 2005.
– Boa notícia para nossos duplistas: pela primeira vez desde 1968, os cabeças 1 e 2 não passaram da estreia em Paris.
– Svitolina tem na teoria um dos mais fáceis jogos de segunda rodada entre as meninas, já que pega Pironkova. Duelos interessantes: Suárez x Cirstea e Strycova x Cornet.

Velhos guerreiros
Por José Nilton Dalcim
29 de maio de 2017 às 19:22

Nem Rafael Nadal, nem Novak Djokovic. O segundo dia de Roland Garros pertenceu a velhos guerreiros. O heróico Rogerinho Silva, o incansável David Ferrer, o resiliente Victor Estrella e até mesmo o elétrico Fabio Fognini deram um show no saibro francês e mostraram por que jogos de cinco sets são tão empolgantes.

Rogerinho merece destaque mais que especial. Entrou em quadra sem saber como conseguiria encarar o tênis vigoroso e agressivo de Mikhail Youzhny, vindo de torção feia no pé dias atrás. Foi dominado, reagiu e aí voltou a pisar em falso, em lance aliás parecido com Genebra. Até o russo achou que ele iria desistir após jogar muito mal três games, mas Youzhny não conhece esse garoto de 33 anos.

Nem mesmo quando encarou uma quebra logo no começo do quarto set Rogerinho amoleceu. Continuou brigando. Vieram dois match-points no serviço do adversário, dois games muito tensos e a partir do tiebreak foi o brasileiro quem mandou na partida. Fechou após esforço de 4h11 diante de um ex-top 10 com 10 ATPs no currículo. Que espetáculo. Pelo segundo Grand Slam consecutivo, ele marcou uma vitória. Para muitos, pode parecer pouco. Quem conhece sua trajetória, aplaude.

Ferrer vive um de seus piores momentos, beirando a aposentadoria. Mas como luta. Esteve duas vezes atrás do placar contra Donald Young e foi ganhar num set de 24 games, debaixo de garoa. Estrella, 36 anos, nem sequer é jogador de saibro. Anotou virada após dois sets atrás de Teimuraz Gabashvili. E Fognini arrastou multidão para a arquibancada no duelo de gerações diante de Frances Tiafoe. O quinto set diz tudo: 6/0, mil reclamações, palavrões e caretas depois. O público foi à loucura.

E sobre os favoritos? Rafa Nadal fez um segundo set instável contra Benoit Paire e deu sorte quando o francês teve break-point para 5/3. Claro que isso nada mudaria a história final do jogo, que foi um tanto sem graça depois que o francês passou a ter dores abdominais. Como provavelmente não será diferente o duelo contra Robin Haase.

Já a maior atenção na estreia de Nole estava na plateia, um tanto tímido. Andre Agassi foi cumprimentado até por Boris Becker e conversou o tempo todo com o irmão Marko. Na quadra, o cabeça 2 segurou Marcel Granollers no fundo e isso deveria render uma vitória fulminante, mas vimos o sérvio perder cinco dos seus 14 games de serviço. Demonstrou estar irritado com os erros, pareceu reclamar até da camiseta do novo patrocinador. Talvez seja apenas a pressão da estreia. Talvez. Agora, vem João Sousa. Outro jogo que não pode ter sustos.

Longe dos holofotes, o belga David Goffin atropelou Paul-Henri Mathieu e os números chamam a atenção: 37 winners e apenas 10 erros nos três sets. Como eu previra, Fernando Verdasco está sendo um perigoso adversário para Alexander Zverev, que terá de ganhar mais dois sets na retomada desta terça-feira.

A chave feminina teve dois momentos importantes. A estreia exigente da campeã Garbiñe Muguruza, que se saiu muito bem diante de uma adversária que conhece muito bem a Philippe Chatrier. Ainda que cometesse falhas aqui ou ali, a espanhola achou os atalhos para superar Francesca Schiavone. A italiana aliás deu a entender que pode adiar a despedida das quadras para 2018.

Depois das lágrimas de Petra Kvitova, vieram as de Kiki Mladenovic. A mais tarimbada das francesas lutou até o fim apesar de sentir contusão na lombar e de ter ficado uma quebra atrás no terceiro set. Karolina Pliskova avançou contra a chinesa Saisai Zheng, em partida em que sacar valeu pouco.

E Bia Haddad? Pena que demorou a pegar o ritmo, o que deu larga vantagem para a experiente Elena Vesnina. Aos poucos, a canhota parou de ‘rifar’ as bolas, ficou mais consistente e aí deu trabalho à número 15 do ranking. Importante notar a diferença de bola dessas meninas tops: profundas, agressivas, sufocantes. Não é nada fácil jogar num nível tão alto e de tamanha intensidade. Assim, apesar da natural derrota, foi muito bom ver que Bia está bem encaminhada. Dá para acreditar que sua próxima vez em Roland Garros será bem diferente.

P.S.: Com as vitórias de Rogerinho e Thomaz Bellucci e o favoritismo de Thiago Monteiro sobre o convidado francês Alexandre Muller, o tênis brasileiro poderá ter três jogadores numa segunda rodada de Grand Slam pela primeira vez desde Wimbledon de 2003. E em Paris, desde 2002.

Paris fica sem ‘final dos sonhos’
Por José Nilton Dalcim
26 de maio de 2017 às 17:23

Se o Australian Open teve uma final que caiu do céu, Roland Garros não terá a mesma sorte. Rafael Nadal e Novak Djokovic poderiam fazer um duelo histórico pelo título e por incríveis façanhas, mas o sorteio da chave determinou que o possível oitavo confronto entre eles em Paris aconteça numa eventual semifinal. Um tanto frustrante.

Favorito natural ao 10º título após sua grande campanha nas últimas semanas, Nadal ainda se favoreceu na formação da chave e é bem provável que não perca sequer sets nas cinco primeiras partidas diante de Benoit Paire, Robin Haase, Gilles Simon ou Roberto Bautista. Até mesmo as quartas não dão susto, seja Milos Raonic, Grigor Dimitrov ou Pablo Carreño.

Djokovic tem uma trajetória teoricamente mais delicada. Estreia tranquila diante de Marcel Granollers, depois Janko Tipsarevic ou João Sousa e talvez algum trabalho se Diego Schwartzmann avançar. Aí teria Lucas Pouille ou mais provavelmente Albert Ramos, que merece respeito. As quartas no entanto indicam o maior desafio, já que deve ser contra quem passar de Dominic Thiem e David Goffin.

A parte de cima ficou interessante, porque imprevisível. Ninguém aposta nada em Andy Murray, Del Potro e Kei Nishikori não estão 100%. Isso dá margem para Alexander Zverev ou Pablo Cuevas arrancarem para as quartas. O alemão tem estreia perigosa contra Fernando Verdasco e cruzaria com o uruguaio ainda na terceira fase.

Mesmo em momento preguiçoso, Stan Wawrinka poderia levar vantagem nisso tudo. Fabio Fognini está no seu caminho ainda na terceira rodada. Curioso é que os sacadores Marin Cilic, Jo-Wilfried Tsonga e Nick Kyrgios ficaram no mesmo quadrante e concorrem a uma vaga nas quartas. Quem tem o maior potencial para beliscar a final? Stan, é claro.

O Brasil
Os brasileiros não podem se queixar do sorteio. Fugir dos cabeças de chave já é um prêmio. Thiago Monteiro tem grande chance. Pega um convidado inexperiente e depois deve cruzar com Gael Monfils, que joga em casa mas vive temporada sofrível. Rogerinho Silva tem contra si a contusão de Genebra. Em condições normais, dá para tirar Mikhail Youzhny antes de Milos Raonic. Mais duro para Thomaz Bellucci porque Dusan Lajovic é um bom tenista. Se passar, deve pegar Lucas Pouille.

Bia Haddad Maia não perdeu set no qualificatório e novamente é o grande destaque nacional no saibro. Está jogando com confiança, soltando o saque e tendo paciência no fundo de quadra. Jogar enfim o primeiro Grand Slam é um prêmio digno para sua persistência, qualidade e simpatia.

A estreia será contra Elena Vesnina, 15 do ranking mas que tem sofrido derrota atrás de derrota desde Miami. Quem sabe, abra caminho para Bia ir bem longe.

Feminino
Desta vez, a chave feminina promete emoção desde as primeiras rodadas. Vinda de contusão, Angelique Kerber corre risco diante de Ekaterina Makarova na estreia. A atual campeã Garbiñe Muguruza também precisa se cuidar com a experiente Francesca Schiavone. E as duas favoritas estão no lado de cima da chave, o que pode abrir um buraco imenso para Carol Wozniacki, Sveta Kuznetsova, Dominika Cibulkova e até Kiki Mladenovic. Registre-se neste setor a confirmação do retorno de Petra Kvitova.

O outro lado tem muitas incógnitas. Karolina Pliskova é impaciente demais para o saibro, mas deu sorte e jogo duro só mesmo na terceira rodada. Aga Radwanska volta, mas fez um único jogo no saibro. Por isso, Simona Halep seria forte candidata à vaga na final, porém há dúvida sobre seu estado atlético. Fica então a expectativa por Elina Svitolina, que vem embalada pelo título em Roma.