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Qual o limite de Federer?
Por José Nilton Dalcim
16 de julho de 2017 às 19:50

Há cinco anos, quando conseguiu reconquistar Wimbledon num grande esforço, parecia que o 17º Grand Slam era um número definitivo para Roger Federer. Afinal, ele já se aproximava dos 31 anos e veria Rafael Nadal recuperar sua melhor forma na temporada seguinte e depois lutaria contra o auge do domínio de Novak Djokovic, sem falar no crescimento de Andy Murray e nas beliscadas de Stan Wawrinka e Juan Martin del Potro.

Ele entendeu então que teria de mudar. Começou pela raquete, que hoje se prova um fator essencial, e passou por treinadores improváveis, como Stefan Edberg e Ivan Ljubicic. Reinventou-se, fez grandes exibições, mas nem assim conseguiu um novo Slam. O destino no entanto não o esqueceu. Foi preciso um problema médico com seu joelho para que ele tivesse de se afastar seis meses do circuito, período em que cuidou do físico, se adaptou perfeitamente à raquete e recuperou a alegria e leveza de jogar.

O Federer versão 2017 é certamente o melhor de todos que já vimos. Além do repertório ainda mais vasto, virou um jogador aplicado na parte tática, estável no plano emocional. Junte-se a isso seu estilo agressivo e um físico privilegiado para se ter um tenista difícil de ser batido até mesmo nas condições mais lentas do circuito de hoje. Roger nunca devolveu tão bem, usou tantas paralelas dos dois lados, encheu a bola de tanto topspin ou foi tão pragmático para construir pontos e se defender.

A pergunta obrigatória é: qual o limite de Federer? Estilo econômico, tênis moderno, pernas ágeis, nada o impede de jogar mais uma ou duas temporadas. Arriscaria a dizer que 2020 está totalmente a seu alcance. E se o fizer, sempre será candidato a ganhar mais títulos, mais Slam, principalmente quando pisar na grama ou numa quadra veloz. Dono de recordes e marcas de difícil superação até a longo prazo, a história permanecerá a seu alcance quase toda semana.

A final deste domingo teve pouca emoção, que pena. Cilic desperdiçou um break point no começo do jogo e de repente sumiu de quadra. Chorou no intervalo para o segundo set, pediu atendimento antes do terceiro e só então voltou a apresentar um tênis decente, porém muito distante do que vinha fazendo no torneio. Afirmou que a bolha no pé gerava tanta dor que não conseguia se concentrar, daí ser estranho ele ter demorado dois sets para cuidar do problema. Assim, Federer não precisou fazer nada de espetacular, exceto jogar seu tênis eficiente e ofensivo.

Pela primeira vez desde 2009, Federer ganha dois Slam na mesma temporada e a expectativa agora é por uma luta direta entre ele e Nadal pela liderança do ranking, algo que não acontece desde 2010. O que deve esquentar o US Open e talvez transformá-lo em outro Grand Slam mágico desta notável temporada.

Que sortudos somos todos nós.

A façanha de Melo
Num país em que quadra de grama é algo tão raro como político honesto, Marcelo Melo tem de ser muito enaltecido pela espetacular campanha em Wimbledon ao lado do polonês Lukasz Kubot. Os dois conseguiram chegar ao ápice do entrosamento, dividindo responsabilidades, grandes lances, resistência física e emocional para superar tantos duelos longos e tensos na campanha.

Duas coisas me deixam especialmente satisfeito. Ouvi críticas e senti um certo menosprezo quando ele chegou pela primeira vez à liderança do ranking, 18 meses atrás, como se não merecesse tudo aquilo. Girafa agora cala de vez as vozes dissonantes. Nada mais incrível e indiscutível do que chegar ao topo com um troféu desse quilate.

É honroso termos dois duplistas de sucesso num circuito tão competitivo. Melo e Bruno Soares nos deram quatro diferentes conquistas de Grand Slam na dupla masculina e quebram séries que pareciam perdidas no tempo. Melo interrompeu 51 anos de jejum em Wimbledon, assim como Bruno havia sido o primeiro a faturar três Slam numa mesma temporada desde Maria Esther.

Segundo profissional brasileiro com maior faturamento na história, já acima dos US$ 5,2 milhões, Melo prova que jogar dupla é também um ótimo e respeitoso caminho a se seguir.

Muguruza confirma
Ninguém ganha um título do tamanho de Wimbledon por acaso, mas é necessário dizer que Garbiñe Muguruza mereceu muito esta conquista. Desde a primeira partida, mostrou um estilo agressivo, aprimorou os voleios, jogou com coragem. Quando derrotou a número 1 Angelique Kerber indo 52 vezes à rede, ficou claro que estava pronta.

Muguruza representou aquela antiga qualidade, hoje um tanto perdida, de modificar técnica e tática ao mudar do saibro para a grama. Lição certamente aprendida dois anos atrás, então uma surpreendente finalista diante de Serena Williams. Tomara que novo aprendizado surja agora e evite o deslumbramento que viveu ao conquistar Roland Garros e perder totalmente o foco.

A final contra Venus só teve emoção no primeiro set. Depois que salvou dois set-points, Muguruza cresceu na confiança e Venus baixou intensidade, cometendo muitos erros. Curioso ver que uma espanhola volta a ganhar na grama justamente ao superar adversária de 37 anos, repetindo Conchita Martinez frente a Martina Navratilova. Coisas do tênis. Venus, sempre simpática, garantiu que vai tentar de novo.

A um passo da glória
Por José Nilton Dalcim
13 de julho de 2017 às 19:09

Suado, sofrido, arrancado. Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot viveram a terceira maratona, mostraram como estão com a cabeça em dia e com máxima justiça avançam à final de Wimbledon. Sábado, Girafa irá tentar realizar pela segunda vez o maior sonho de sua vida e coroar o retorno ao número 1 do ranking. Em 2013, ele e Ivan Dodig perderam de virada para os irmãos Bob e Mike Bryan.

Incrível como Melo e Kubot foram se entrosando ao longo da temporada. Começaram tímidos, quase desfizeram a parceria, mas decidiram se dar outro oportunidade, treinaram duro e a história começar a mudar com o vice em Indian Wells. A confiança aumentou tanto que veio o título de Miami, um piso até lento para o estilo dos dois. Foram ao saibro e faturaram Madri. Quando chegaram à grama, tudo se encaixou de vez. Marcelo, que jamais havia erguido um título na superfície, está na terceira final seguida, invicto a 13 jogos.

O mineiro de 32 anos e 2,03m disputará a 67ª final brasileira de nível Grand Slam em busca do 33º título. Se eliminarmos os juvenis da conta, são 29 conquistas em 50 decisões já disputadas. Dois fatos são curiosos: graças a ele e Bruno Soares, hoje o Brasil tem troféus de duplas masculinas em todos os Slam, exceto Wimbledon; e também por causa dos mineiros, somamos hoje troféus de simples, de duplas e de mistas na Austrália, França e EUA, novamente faltando a grama britânica, onde apenas Maria Esther Bueno brilhou até hoje.

E olha que nossa chance de faturar mistas está grande. Soares com a ótima parceira Elena Vesnina e o gaúcho Marcelo Demoliner junto à competente Maria Jose Martinez estão em semifinais distintas, podendo até fazer uma decisão entre brasileiros. Seria um sábado inesquecível.

Quem quiser ver a lista completa dos brasileiros que já fizeram finais em Grand Slam, clique aqui.

Feminino tem final perfeita
As duas semis femininas foram diferentes, porém ambas muito mais rápidas do que se esperava. O domínio de Garbiñe Muguruza sobre Magdalena Rybarikova foi tão absurdo que o público precisou torcer para a eslovaca ganhar games. A espanhola está muito solta em quadra e jogando seu melhor tênis desde a conquista de Roland Garros do ano passado. Agressiva, com bom saque, arriscando da base e indo muito à rede. Quem a visse pela primeira vez, acharia que nasceu em Londres.

Venus Williams e Jo Konta fizeram um belíssimo primeiro set, ao feitio da grama. Forçaram saque, bateram reto, tentaram deslocar a adversária. A britânica teve uma chance importante no 4/4 e daí em diante caiu de rendimento. Venus não tirou o pé do acelerador, fechou o set e se manteve compacta, com direito a usar até mais topspin do que o normal.

Wimbledon tem tudo para ver uma tremenda final no sábado, daquelas de ir para a história. As duas parecem confiantes e são cheias de experiência. Muguruza perdeu a final de 2015 para a outra Williams e de certa forma pode jogar mais solta, colocando responsabilidade sobre Venus, que tem uma chance única de voltar a ganhar Wimbledon e um Grand Slam depois de tanto tempo.

Por mais maluco que possa parecer, Venus pode até mesmo entrar na briga pela liderança do ranking em caso de título. Subiria para o quarto lugar, com 5.161 pontos, nada distante da líder Karolina Pliskova, que estaria a cerca de 1.700 pontos. A espanhola irá recuperar o quinto posto com eventual conquista.

As semis masculinas
– A última vez que todos os semifinalistas de Wimbledon estavam fora do top 4 do ranking foi em 2003, quando o mais alto classificado era o garoto Federer, então 5º.
– Federer tem 18 a 6 diante de Berdych, com sete vitórias seguidas. O último triunfo do tcheco foi em Dubai de 2013. Mas ele já ganhou do suíço nas quartas de Wimbledon de 2010.
– Suíço tenta a 90ª vitória e, se fizer a 11ª final em Wimbledon, será o segundo mais velho. Em 12 semis no torneio, ele só perdeu uma vez, a do ano passado.
– Berdych tenta repetir Lendl como únicos tchecos com duas finais em Wimbledon. Em Slam, ele está atrás de Korda, Kodes e Lendl. Jamais na carreira, Berdych venceu três top 10 seguidos (Thiem e Djokovic os outros).
– Cilic ganhou todos os quatro duelos contra Querrey, três deles na grama e dois em Wimbledon (ambos decididos no quinto set).
– O vencedor será o tenista profissional que mais edições disputou até chegar na final: Cilic está na 11ª e Querrey, na 10ª. O americano também igualará a marca de Ferrer em Slam, com 42 tentativas.
– Ivanisevic é único croata a disputar mais de uma final de Slam (foram 4, todas em Wimbledon).
– Último americano a decidir o torneio foi Roddick, em 2009 (batido por Federer).
– Querrey é o sétimo tenista a ganhar três jogos seguidos no quinto set em Wimbledon. Ninguém ganhou quatro partidas.

São Federer
Por José Nilton Dalcim
2 de abril de 2017 às 22:17

Roger Federer fez um pequeno milagre neste domingo em Miami. Não apenas ganhou em dois sets de Rafael Nadal como enfrentou condições extremamente difíceis para quem vinha de duas batalhas físicas e mentais quatro dias antes. Sob calor de 30 graus e umidade de 78%, era natural que o canhoto espanhol tivesse maiores oportunidades de sucesso. Piso mais lento, exigência atlética enorme. E nem assim ele parou Federer, que fechou a primeira parte da temporada com um domínio assustador.

Não foi um jogo fácil, como enganosamente indica o placar. O primeiro set viu uma incrível sucessão de break-points, mas os dois jogadores conseguiram tirar o melhor de si na hora do aperto. Nadal se salvou na maior parte do tempo com o primeiro saque muito profundo, mas bastou um game de aproveitamento inferior para ele ficar à mercê das devoluções agressivas de Federer. O suíço não sacou tão bem, porém nunca abdicou de atacar a segunda bola.

Houve sim algumas novidades táticas na partida. Foi possível ver várias vezes o suíço enchar a bola de topspin ao melhor estilo Nadal, numa delas obtendo até winner. Já o espanhol tentou um pouco de tudo. Bateu mais na bola, fez paralela de backhand, buscou a rede, deu curtinha inesperada e surpreendeu com segundo saque no forehand. Talvez as três derrotas anteriores, especialmente a de Indian Wells, tenham pesado para Rafa.

A diferença básica foi a devolução. Rafa poucas vezes colocou Federer sob pressão, favorecendo-se mais dos erros. O suíço retornou muito mais, jamais saiu de cima da linha e no final havia pegado de vez o ritmo do serviço para alcançar winners. A se observar a qualidade absurda dos voleios do suíço, alguns em momento delicado e de enorme dificuldade.

Federer saiu de quadra anunciando que irá parar a máquina até Roland Garros. Não chega a ser uma decisão surpreendente, ainda que minha expectativa é que ele jogasse Madri e Roma porque afinal suas chances no saibro de Paris não são tão pequenas assim. Ele no entanto se diz esgotado após Indian Wells e Miami, quer se preservar ao máximo porque “o objetivo é Wimbledon”. Diante disso, temos de concordar e apenas lamentar sua ausência por quase dois meses.

Nadal, claro, sai frustrado por mais um vice na temporada e em Miami, certamente não engolindo outra derrota para o arqui-rival. Porém ele faz o discurso certo. O bom primeiro trimestre – afinal, ele também volta de longa parada – e o momento duvidoso de Andy Murray e Novak Djokovic o colocam novamente como grande nome para o saibro europeu. Entra como favorito em Monte Carlo, pode embalar em Barcelona, sempre é forte em Roma e isso o deixará muito perigoso para Paris. Mesmo sem Federer, a temporada de saibro promete.

O fim de semana também coroou a parceria de Marcelo Melo e Lukazs Kubot e sacramentou a ascensão de formiguinha de Johanna Konta. O mineiro chegou ao sexto troféu de nível Masters e a dupla agora é a segunda melhor da temporada. O respeito aumenta de vez. O ponto mais positivo das campanhas nos EUA foi sem dúvida a evolução da devolução de saque dos dois, que era um ponto delicado para Melo depois que desfez o dueto com Ivan Dodig. O croata segurava muito atrás.

Konta retorna ao top 10, mas é importante ressaltar que ela sequer era top 100 duas temporadas atrás. Não é uma jogadora jovem – já vai para 27 anos -, porém continua lutando para melhorar em todos os aspectos. Gosta de ser ofensiva, mas diante de Carol Wozniacki mostrou que sua parte defensiva também ficou mais consistente. Quando precisou de paciência, fez tudo direitinho.

Pena que agora vem o saibro, um piso que não parece combinar muito nem com Melo/Kubot, nem com Konta. Eles terão de manter um bom padrão para tentar aventuras na temporada de grama. Lá, todos ficarão bem mais à vontade.