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Volta por cima
Por José Nilton Dalcim
10 de setembro de 2017 às 23:56

O jejum de três anos e oito meses de conquistas sobre o piso sintético não poderia ter terminado de forma mais exuberante para Rafael Nadal. Depois de deixar escapar chances em Melbourne, Acapulco e Miami, o canhoto espanhol mostrou em Flushing Meadows as qualidades essenciais de quem joga bem nesse tipo de superfície: grande percentual de pontos vencidos com o saque, capacidade de evitar e buscar break-points, devoluções persistentes e perfeita transição para a rede.

Junte-se a isso sua habitual competência atlética de buscar bolas impossíveis, as pernas leves para atacar com o forehand bem posicionado e uma evolução cristalina do backhand e se tem um campeão. Ou melhor, um tricampeão do US Open. Para quem não se lembra, é importante recordar que, a cada conquista em Nova York, ele mostrou um elemento novo no seu repertório. Num ano, jogando mais perto da linha, em outro agregando slices e voleios. Nadal mais uma vez se reinventou, e isso não aqui e agora, mas desde o começo da temporada.

A final de domingo transcorreu exatamente como o previsto. Na verdade, a surpresa foi que Nadal sacou muito melhor do que Anderson, que era o tenista que dependia crucialmente do serviço para ter chances. Até o nervoso último game, Nadal só havia permitido dois 30-30, sempre achando o backhand do sul-africano na hora precisa. Não menos fundamental foi o fato de que o espanhol conseguiu colocar muita devolução de volta, obrigando Anderson a disputar dezenas de pontos que certamente não gostaria. Aí forçou e errou além da conta.

A conquista deste domingo também pode ser essencial na luta para terminar como número 1 da temporada. Divide agora com Roger Federer dois Grand Slam para cada lado, mas seu domínio sobre o saibro permite que abra uma diferença de 1.860 pontos sobre o suíço nesta segunda-feira. Ou seja, irá permanecer na ponta pelo menos até o final de outubro. Embora seja possível Federer somar mais pontos até o Finals, a lógica diz que os dois irão disputar em Londres, rodada a rodada, a primazia de 2017.

Ao atingir o 16º Slam, uma coleção iniciada 12 anos atrás, Nadal ganha a motivação para tentar se aproximar, igualar ou até mesmo ultrapassar os 19 troféus de Federer em 2018. Não é obviamente uma tarefa fácil, mas Nova York a tornou mais possível do que nunca. Antes disso, porém, Rafa talvez tente realizar o sonho de ganhar o Finals, o torneio que falta na sua galeria de 74 títulos. Num grupo que não terá Djokovic, Wawrinka e Murray mas talvez novatos como Zverev, Thiem, Dimitrov e até Carreño, a chance aumenta muito.

No sábado, a final feminina foi sim inesperada. E frustrante. Madison Keys não controlou os nervos e fez uma partida muito abaixo de sua qualidade técnica. Buscou como sempre ser agressiva, mas estava muito precipitada. E diante de Sloane Stephens, não dá para cometer tantos erros de julgamento e finalização. Resultado foi um atropelamento impiedoso.

Stephens voltará nesta segunda-feira ao 17º lugar do ranking, cerca de 940 posições acima do que ocupava quando retornou ao circuito em Wimbledon, após 11 meses de inatividade e drama. Contou na entrevista oficial que chegou a duvidar que conseguiria recuperar um lugar no top 100, quem dirá ganhar um Grand Slam, e ainda por cima o US Open.

Embora não tenha um saque contundente, seu tênis é muito astuto, mesclando ataque e defesa. Muita perna e determinação, o que necessariamente lembra o próprio Nadal. Predicados que sem dúvida foram a marca registrada deste US Open.

Nadal com a mão no 16º Slam
Por José Nilton Dalcim
8 de setembro de 2017 às 18:23

A menos que aconteça uma das maiores surpresas deste milênio no tênis masculino, Rafael Nadal reacenderá no domingo a velha discussão sobre a possibilidade de igualar, e quem sabe ultrapassar, Roger Federer na quantidade de títulos de Grand Slam. O número 1 é amplo favorito diante do debutante de 31 anos Kevin Anderson, contra quem só perdeu um set em quatro partidas. A diferença de currículo é esmagadora.

Rafa marcou nesta sexta-feira sua terceira virada no torneio depois de perder o primeiro set, com um script muito parecido: a partir da primeira quebra obtida, ganhou confiança e deslanchou. A diferença é que desta vez o adversário era o experiente Juan Martin del Potro, dono de temidos saque e forehand. Talvez Roger Federer tenha cometido mais um erro neste US Open ao imaginar que o argentino teria mais chance diante de Nadal do que ele próprio.

Algumas estatísticas chamam a atenção. Dos pontos que o espanhol fez contra Delpo, praticamente 45% foram winners. Outros 40% foram de erros não forçados do argentino. Rafa terminou a partida com 19 falhas, das quais 10 foram no primeiro set perdido e o restante nos outros três sets. Ele explicou em quadra o que mudou tanto: deixou de martelar o backhand adversário, tática mais do que óbvia, e ousou com paralelas. Quem disse que não é possível ganhar de Delpo atacando seu forehand?

Anderson chega à final com predicados. Cedeu apenas cinco quebras em 109 games de serviço, um aproveitamento de 96%, tendo salvado 17 de 22 break-points. Já supera a casa dos 100 aces nesta edição do US Open, com 114. Evidentemente, portanto, o saque será sua maior chance de equilibrar a final.

Diante de Pablo Carreño nesta sexta, mostrou uma outra grande qualidade: a excelente movimentação para um jogador de 2,03m, o que aliás o torna o mais alto finalista de Grand Slam de todos os tempos. Número 32 do ranking, é também o tenista de mais baixo ranking a atingir a final de Nova York desde a criação do ranking, em 1973, e de um Grand Slam desde Jo-Wilfried Tsonga, na Austrália de 2008, quando era 38º.

Ex-top 10 do ranking, justamente depois de atingir as quartas do US Open de 2015, Anderson passou por maus bocados devido a seguidas e variadas contusões. A mais preocupante foi o quadril, que o tirou do Australian Open e derrubou seu ranking para o número 80. Agora, voltará ao 15º lugar e poderá ser novamente 10º se levar o título.

Representará dignamente o tênis norte-americano nesta final, mas é improvável que tenha a torcida. Ele vive no país desde que entrou para a Universidade de Illinois, aos 18 anos. Hoje, mora na Flórida com a esposa, amiga de universidade e golfista. Mas nunca cogitou trocar de cidadania.

Renovação garantida
Enquanto todo mundo espera ver a renovação florescer no circuito masculino, as meninas dão um salto espetacular. O US Open será decidido neste sábado por duas afro-americanas, uma de 22 e outra de 24 anos, muito amigas e que representam o modelo norte-americano de jogar.

É precoce dizer que Madison Keys ou Sloane Stephens serão sucessoras das irmãs Williams. Até porque Serena e Venus não deram qualquer sinal que pretendam parar, muito menos que deixaram de ser competitivas.

A preocupação maior é justamente a questão física, o grande fantasma do tênis profissional. Ambas já passaram por problemas graves, Sloane com o pé, Keys com o punho.

Com 1,78m e ex-7 do ranking, Keys tem o acompanhamento de Lindsay Davenport e um jogo mais ofensivo, ainda que não bata tão reto na bola como a treinadora fazia. É versátil nos pisos, tendo batido até mesmo Garbiñe Muguruza no saibro de Roma no ano passado.

Sloane mede 1,70m, é de uma inteligência tática assombrosa, ainda que treinada pelo quase desconhecido Kamau Murray. Possui grande qualidade na defesa, daí ter vitórias sobre Serena, Venus, Sharapova e Kerber. Era 957 do ranking seis semanas atrás. Se conquistar o título, voltará ao top 20.

Delpo impede Fedal outra vez
Por José Nilton Dalcim
7 de setembro de 2017 às 01:34

Assim como fez em 2009, Juan Martin del Potro impediu que o tão aguardado ‘Fedal’ enfim acontecesse em Nova York. Aliás, oito anos atrás, ele derrotou na sequência Rafael Nadal e Roger Federer para conquistar um troféu histórico. Do jeito que jogou nesta noite, a tarefa não parece impossível de ser repetida.

Havia dúvida sobre quanto físico havia restado ao argentino após a virada incrível em cima de Dominic Thiem. Que nada. Delpo estava inteiro e com muita vontade de ganhar. Sacou muito bem o tempo inteiro, bateu o backhand o máximo que pôde e se aplicou nos contra-ataques diante das tentativas do adversário de vir para cima.

Os dois primeiros sets foram decididos em detalhes, para um lado e para o outro. É bem verdade que Federer estranhamente insistia em acabar o ponto no forehand do argentino e por vezes foi à rede em bolas curtas demais. E aí o tiebreak do terceiro set decidiu o jogo. Federer teve quatro chances e Delpo se virou bem demais, ora com uma devolução bombástica no pé do suíço, ora com passadas firmes, uma delas depois que cometeu dupla falta. Mentalmente, estava firme demais.

Esse tiebreak se refletiu diretamente no quarto set. Delpo jogou de forma impecável, cometendo um único erro não forçado, e lá no último game, mesmo disparando alguns golpes extraordinários, enquanto Federer perdeu a confiança, ofereceu a quebra precoce e não conseguiu reagir, apesar de todo seu esforço. Resultado incontestável.

Nadal por sua vez teve as quartas de final dos sonhos de qualquer um. Pegou um adversário jovem e que parecia não saber muito bem o que fazer diante dos spins do canhoto espanhol. Rublev tentou até bater firme, mas cometeu um caminhão de erros. Rafa manteve a bola o mais funda possível e se deu ao luxo de atacar o serviço. Toda essa combinação fez com que o jogo fosse bem decepcionante. Menos é claro para Nadal, que ganhou ainda mais confiança e economizou o máximo de energia para sexta-feira.

É inegável que Nadal nunca teve uma campanha tão tranquila para chegar à semi de um Grand Slam, não tendo enfrentado um único top 50 nas cinco partidas de Nova York, embora não tenha culpa se Richard Gasquet, Tomas Berdych e Grigor Dimitrov não cumpriram seu papel. A campanha só se assemelha ao US Open de 2011, quando Nadal pegou quatro fora do top 60 mas precisou ganhar de Andy Roddick, então 21º, nas quartas.

Del Potro terá chances contra Nadal? Bom, é assunto para amanhã.

Título em casa
Para compensar o fracasso dos homens, o tênis norte-americano domina totalmente as semifinais femininas, algo que só havia acontecido outras quatro vezes em toda a Era Profissional: US Open de 1979 e 81, Austrália de 83 e Wimbledon de 85. E olha que Serena Williams nem jogou.

Depois de Venus e Sloane Stephens, Madison Keys cumpriu à risca seu favoritismo sobre a estoniana Kaia Kanepi e CoCo Vandeweghe foi menos ruim do que a tcheca Karolina Pliskova, num jogo nervoso e de nível ruim.

Keys (22 anos), Stephens (24) e Coco (25) já fizeram semi na Austrália, mas Vandeweghe tem de ser considerada a grande surpresa deste US Open por ter um currículo menos atrativo que as compatriotas. A boa notícia é que todas jogam um tênis agressivo e certamente devem isso ao padrão imposto pelas Williams duas décadas atrás.

A nova número 1
Com a queda de Pliskova, que defendia o vice, Garbiñe Muguruza será a 24ª tenista e a segunda espanhola a liderar o ranking feminino. Arantxa Sanchez teve breve reinado de 12 semanas entre fevereiro e junho de 1995, quando Muguruza nem tinha dois anos de idade.

Embora não tenha passado das oitavas neste US Open, não se pode desta vez dizer que seja pouco merecido. Muguruza já tem dois troféus de Grand Slam e acaba de ganhar Wimbledon, mostrando novas armas. A vantagem no entanto é pequena para Simona Halep, Elina Svitolina e a própria Pliskova, sem falar que Venus entrará na briga pela liderança na reta decisiva da temporada, principalmente se for à final do US Open.

O tênis espanhol estará na ponta dos rankings masculino e feminino na segunda-feira, algo que não acontecia desde 2003, com Serena e Andre Agassi.