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Boas e más surpresas
Por José Nilton Dalcim
30 de maio de 2017 às 18:18

Você pode escolher seu momento inesperado do dia. A queda inapelável de Alexander Zverev, o sofrimento de Jo-Wilfried Tsonga em plena central ou dois sets decentemente jogados por Andy Murray. O complemento da primeira rodada de Roland Garros ainda teve altos e baixos de Stan Wawrinka, a boa volta de Juan Martin del Potro e o drama de Thiago Monteiro. Emoção para todos os gostos.

O título em Roma e a experiência do canhoto Fernando Verdasco fizeram mal a Zverev, que teve raros momentos de lucidez e se mostrou irritado demais. Abriu um incrível buraco no seu quadrante, que deveria beneficiar Kei Nishikori. Mas o japonês não demonstra condições físicas de ir longe e a vaga nas quartas pode cair no colo de Pablo Cuevas ou do próprio Verdasco.

No mesmo lado da chave, Murray deu alguma esperança de por fim a seu calvário. Foi instável diante de Andrey Kuznetsov com o perturbador travamento de seu forehand, mas fez depois dois sets que lembraram o melhor do escocês: bom saque, agressividade, toques mágicos, pernas velozes. Será? Não aposto. Porque agora vêm o chato Martin Klizan, canhoto que joga no tudo ou nada, e em seguida quem passar de Del Potro e Nicolás Almagro. Muita provação por vir.

Wawrinka reclamou da difícil adaptação pós-altitude de Genebra e seus desafios não são menores: o tira-físico Alexandr Dolgopolov e quem sabe Fabio Fognini antes de chegar em Gael Monfils ou Richard Gasquet. É uma chave exigente, sem dúvida. Gael, como se esperava, fez um jogo de deliciosos lances contra Dustin Brown.

O padrão showman também incluiu Nick Kyrgios, que passou com incrível autoridade por Philipp Kohlschreiber. O australiano deve estar torcendo para Renzo Olivo acabar com o jogo em cima de Tsonga, esta sim uma surpresa gigante. Dono de bons golpes e um excelente forehand angulado, o argentino de currículo challenger conta com um francês irregular e já poderia ter liquidado a fatura em três sets.

E o que dizer do sufoco de Monteiro? Diante de um garoto inexperiente e fora do top 300, poderia ter perdido rapidamente. Mas há muito crédito a ser dado a Alexander Muller porque jogou com coragem e tranquilidade espantosas. Para sorte do cearense, faltaram pernas ao francês e só aí Thiago tomou conta da partida. Assim, o Brasil tem três nomes na segunda rodada de Paris pela primeira vez em 15 anos. A duríssima tarefa de Monteiro é Gael. Se em forma, Monfils seria quase imbatível, mas todos sabemos que dele pode se esperar qualquer coisa.

Para o bem da chave feminina, Elina Svitolina manteve o embalo, Simona Halep e Aga Radwanska não deram sinais de problemas físicos em suas estreias. São as três candidatas à vaga na final do lado inferior junto a Karolina Pliskova, mas vamos precisar de desafios realmente sérios a elas para ter ideia de algum favoritismo.

A quarta-feira
– João Sousa tenta ser primeiro português na história a chegar na terceira rodada de Roland Garros. Só tem um problema: Djokovic, de quem só tirou 16 games em oito sets jogados.
– Robin Haase já sentiu o gostinho de encurralar Nadal, mas foi na grama de Wimbledon de 2010, quando teve 2 sets a 1.
– Esta será a 99ª partida de Nadal em melhor de cinco sets sobre o saibro (96 vitórias).
– O Brasil volta a ter três jogadores na segunda rodada de um Slam depois de 14 anos, em Wimbledon. A última vez que teve dois na terceira rodada de Paris foi em 2003, com Guga e Saretta.
– Rogerinho tem agora 4-1 em jogos de cinco sets na carreira, mas nunca ganhou de um top 10 como Raonic.
– Pouille, adversário de Bellucci, ganhou seu quinto jogo de cinco sets seguido. O brasileiro só passou duas rodadas num Slam por quatro vezes na carreira, duas em Roland Garros e uma no US Open e outra em Wimbledon.
– Karlovic e Zeballos se reencontram pelo segundo Slam seguido. Em Melbourne, foram a 22/20 no quinto set, recorde do torneio na Era Aberta.
– Bolelli, adversário de Thiem, está no 470º posto. Mas isso em função de oito meses parado para cirurgia no joelho. Ele já chegou duas vezes à 3ª rodada de Roland Garros.
– Bom duelo de backhands de uma mão deve acontecer entre Dimitrov e Robredo. O búlgaro perdeu 3 de 4 duelos para o espanhol, que por cinco vezes fez quartas em Paris.
– Atual campeã de duplas do torneio, Mladenovic ainda sonha em passar da terceira rodada em simples, falhando seguidamente nos três últimos anos. Sua adversária: Sara Errani, finalista de 2012 que precisou desta vez jogar o quali. Drama à vista.

Tênis cabeça
Por José Nilton Dalcim
10 de maio de 2017 às 18:55

Novak Djokovic e Rafael Nadal não fizeram as melhores exibições que poderiam sobre o saibro rápido de Madri, mas passaram para a terceira rodada com uma arma muito poderosa: a cabeça.

E isso me parece particularmente importante no caso de Nole. Afinal, a maioria acredita que sua queda de produção tem muito a ver com questões emocionais. Ao ver Nicolás Almagro marcar 3/0 no terceiro set, criou-se uma excelente oportunidade de ver como andava o mental do sérvio, ainda mais agora que demitiu toda sua equipe técnica.

Djoko foi muito bem. Jamais perdeu a calma, não deu escândalo, ficou no jogo à espera de oportunidade. Lutou e criou a virada, diante de um espanhol que estava então muito afiado. Almagro é um mestre em perder jogos que estão na mão, ao melhor estilo Bellucci, e o sérvio tomou a atitude correta: não deu ponto de graça, obrigou o adversário a arriscar.

Abriu caminho assim para a semifinal. Terá é claro que tomar cuidado com o entusiasmo do madrilenho Feliciano López – de quem só perdeu uma vez em nove duelos, ainda assim por abandono – e então enfrentar Kei Nishikori ou David Ferrer. É um excelente quadro para quem precisa reagir na temporada.

A cabeça também foi o diferencial entre Nadal e Fabio Fognini. O italiano entrou determinado a agredir. Deixou escapar o primeiro set, venceu o segundo e aproveitou os altos e baixos do espanhol para endurecer o terceiro até o finzinho. Rafa não jogou mil maravilhas e falhou principalmente com o saque, a ponto de perder cinco serviços.

Não poderá vacilar na mesma proporção diante de Nick Kyrgios, que até aqui passeou na quadra e nem parece ter ficado tantas semanas sem competir. A bola anda muito na altitude de Madri e o australiano vai apostar tudo no seu poderoso saque. Quem passar poderá escolher entre o jogo de risco de Milos Raonic ou a regularide de David Goffin. Aliás, gostei dos dois jogos do belga no torneio. Parece que ele assimilou enfim o top 10.

O destaque até aqui para mim é Alexander Zverev. Ele não brilhou em Monte Carlo e Barcelona, mas faturou Munique na semana passada e agora em Madri já tirou os experientes Fernando Verdasco e Marin Cilic. Tem uma chance real contra Tomas Berdych e isso poderá abrir lugar na semi, já que Stan Wawrinka fez o favor de perder para Benoit Paire com atuação lastimável e o francês cruzará com Pablo Cuevas.

O primeiro dos quadrantes promete jogos também empolgantes. Andy Murray pega Borna Coric, que não é de atacar, enquanto Dominic Thiem e Grigor Dimitrov fazem duelo inédito no saibro. Será que teremos a reedição de Murray x Thiem? O austríaco bem que ficaria feliz.

E como não custa sonhar, que tal as quartas de Madri com Coric, Thiem, Dimitrov, Zverev, Goffin e Kyrgios? Vale observar que todos eles, à exceção de Coric, estão agora firmes no top 20 do ranking.

Nole radicaliza
Por José Nilton Dalcim
5 de maio de 2017 às 18:28

Novak Djokovic surpreende outra vez o mundo do tênis sem sequer entrar em quadra. Com atuações irregulares, derrotas inesperadas e comportamento pouco usual, o tenista que dominava amplamente o circuito há exatos 12 meses optou por um tratamento de choque. Anunciou a troca de toda sua equipe e um voo solo pelo menos durante Madri e Roma. Radicalizou.

Em apenas quatro meses, Djokovic mudou tudo. Ainda em dezembro, não renovou o contrato com Boris Becker. Especula-se que o rigoroso alemão teria exigido a saída do guru espanhol, o controverso Pepe Imaz. Agora, dispensa não apenas o treinador de 10 anos Marian Vajda, mas também o núcleo todo de sua equipe, o preparador Gebhard Phil Gritsch e o fisioterapeuta Miljan Amanovic. Aliás, Imaz não foi mais visto junto a Djokovic.

O que mais surpreende é que a decisão seja tomada em meio à temporada de saibro, que de certa forma é essencial para Nole, com dois títulos e um vice a defender nas próximas semanas. Claro que o anúncio de hoje não significa que a mudança tenha acontecido às vésperas de Madri. Muito provavelmente ocorreu logo depois de Monte Carlo e o sérvio deixou o anúncio para a última hora, sabendo que seria estranho não ver seu time no box da Caja Magica.

Há duas formas de ver a situação e só o tempo dirá qual delas é a mais correta. Ao tomar atitude tão profunda, Djoko mostra a todo mundo que quer recuperar seu tênis e seu espírito vencedor e está disposto a tudo. Mas ao mesmo tempo pode ser mais um sinal de que esteja completamente sem rumo. Não anunciou um substituto e, imagina-se, irá encarar essa fase tão delicada sem um treinador. Roger Federer já fez isso e não foi o fim do mundo.

O primeiro teste será no saibro ‘anormal’ de Madri, que é mais veloz devido à altitude e pode ficar ainda mais rápida se o teto for usado. Nicolas Almagro, Gael Monfils, Jo-Wilfried Tsonga ou Kei Nishikori são os mais prováveis adversários até a semifinal. Aí Nole poderá cruzar com Rafael Nadal. O espanhol no entanto deverá ter uma caminhada exigente, com Fabio Fognini, Nick Kyrgios e Milos Raonic ou David Goffin pela frente.

O lado de cima prevê muitas dores de cabeça para Andy Murray, principalmente se der Guillermo Garcia, Lucas Pouille e Dominic Thiem. A outra vaga na semi não está fácil para Stan Wawrinka, que pode encarar Pablo Carreño logo na estreia. Como a bola anda bastante em Madri, Alexander Zverev, Tomas Berdych e até Grigor Dimitrov são candidatos a boas campanhas nessa parte da chave.

Madri é um ponto fora da curva na temporada do saibro europeu. Desta vez, no entanto, parece ter uma importância capital para aqueles que sonham com reação na temporada. Nadal é o único que pode ser dar ao luxo de jogar sem compromisso e isso o torna ainda mais perigoso.