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Jogo de um set só
Por José Nilton Dalcim
3 de junho de 2017 às 20:17

Andy Murray e Stan Wawrinka superam a desconfiança e estão nas oitavas de final em Roland Garros. Curiosamente, ambos precisaram acima de tudo ganhar um complicadíssimo primeiro set para comemorar um grande sábado em Paris. Nenhum deles sabe quem irá enfrentar. Certamente, vão adorar se os futuros adversários se desgastarem ao máximo no domingo.

O escocês fez sua melhor partida do ano, e nem tanto pelo resultado mas pela postura. Finalmente, vimos um Murray empenhado, soltando o forehand, abusando de seu toque magistral. Faltaram é claro mais eficiência no saque e menos falatório, porém foi sintmático vê-lo alterar a tática ainda no final do primeiro set, quando perdia por 3/5, e fugir do backhand para atacar com o forehand cheio de spin. Delpo até então conseguia sucesso ao baixar muito a bola e fazer o adversário executar o backhand lá no chão.

Delpo deveria ter levado o set – ainda teve uma chance no tiebreak, quando cometeu dupla falta – e o desperdício lhe causou um evidente desânimo. No entanto, gigante, nunca se entregou e ainda ameaçou no final do segundo set. Só então ficou evidente que não tinha mais pernas. Como diria mais tarde, o primeiro set decidiu a partida, tanto na parte mental como na física.

Algo um tanto semelhante aconteceu com Stan. A variação absurda de Fabio Fognini surtiu efeito e o italiano liderou o primeiro set. Sacou com 5/4 e depois com 6/5, deixando escapar quatro set-points antes de perder a eficiência no tiebreak. Daí em diante, apareceu um incômodo no punho e não houve mais competitividade.

Murray aguarda Karen Khachanov ou John Isner – o russo levou o primeiro set, acreditem, com 7-1 no tiebreak – e Stan enfrentará quem passar de Gael Monfils e Richard Gasquet, que faziam um jogo até agitado antes de a chuvar cair, logo depois de Gasquet salvar três set-points.

Surpresa mesmo tem sido Fernando Verdasco. O canhoto, agora 33 anos, não fazia qualquer campanha destacada em Slam desde 2014 e se credencia às oitavas com vitórias maiúsculas em cima de Alexander Zverev e Pablo Cuevas. O segredo tem sido trabalhar bem o saque, atacar na hora certa e manter a cabeça no lugar.

Neste sábado, explorou corretamente o backhand de Cuevas e anotou somente 15 erros. Com o sufoco que Kei Nishikori está levando do garoto Hyeong Chung, Verdasco tem chance real. Aliás, Marin Cilic e Kevin Anderson também são agradáveis novidades e farão um duelo direto de muito saque e winner. O croata, sem perder sets, tem o favoritismo.

A chave feminina fez a alegria francesa, já que Carolina Garcia venceu jogo duríssimo e agora encara Alizé Cornet, que atropelou uma Aga Radwanska totalmente perdida. Muito firme, Carla Suárez, que se candidatou a ser uma adversária à altura para Simona Halep.

Se não tem um nível técnico espetacular, este setor ao menos tem o ingrediente da imprevisibilidade total.

Rogério brilha
Depois de fazer dois grandes jogos na chave de simples, Rogerinho ganhou vaga na chave de duplas com o italiano Paolo Lorenzi e, apesar de estarem longe de ser especialistas no assunto, eles vão se virando com uma chave bem propícia e garantiram neste sábado lugar em plenas quartas de final. Tremendo feito.

Com isso, Rogerinho se tornará nesta segunda-feira o 31º brasileiro a aparecer na faixa dos top 100 do ranking de duplas, desde que a lista foi criada em 1975. E mais importante ainda: será apenas um dos 13 tenistas nacionais a ter figurado simultaneamente entre os 100 tanto de simples como de duplas.

Domingo histórico
– Djokovic e Nadal podem começar a reescrever a história de Roland Garros neste domingo. Caso atinjam as quartas de Paris pela 11ª vez, igualam o recorde de Federer no torneio.
– Nole também pode repetir hoje as 233 vitórias de Slam de Connors e ficar atrás somente das 314 de Federer, ao mesmo tempo que chegaria a 59 em Paris e deixaria Vilas para trás. Nadal tem 75 e Federer, 65.
– Albert Ramos fez quartas no ano passado. Ele já derrotou nomes como Federer e Murray e foi à final de Monte Carlo em abril.
– Nadal ganhou todos os 12 jogos diante de compatriotas em Roland Garros e tem 19-3 nos Slam (dois para Ferrer e um para Verdasco). Bautista jamais chegou nas quartas de um Slam e nunca venceu um top 10 no saibro.
– Raonic ganhou todos os 7 sets disputados contra Carreño, mas nunca se cruzaram na terra. Carreño nunca derrotou um top 10 em 16 tentativas.
– Thiem cedeu apenas 25 games nos três primeiros jogos. Zeballos pode repetir façanhas de Robredo e Fernando González, de 2009, e disputar as quartas tanto de simples como de duplas.
– Chave feminina esquenta. Wozniacki e Kuznetsova fazem duelo imprevisível, com dinamarquesa liderando por 7-6, porém nunca se cruzaram no saibro. Venus tenta se vingar da derrota para Bacsinszky nas mesmas oitavas de Paris do ano passado.
– Muguruza e Mladenovic deve eletrizar a torcida. Francesa ganhou único duelo, no saibro de Marrakech, e tenta primeira presença nas quartas em Paris e a segunda em Slam. Aos 33, Stosur tem respeitável histórico no torneio, mas a garota Ostapenki, de 19, é um perigo.

Ficamos no quase. Com louvor.
Por José Nilton Dalcim
31 de maio de 2017 às 19:53

Por uma hora, deu para acreditar que Thomaz Bellucci e Rogerinho Silva poderiam aprontar façanhas semelhantes aos ‘hermanos’ neste Roland Garros. Mas ficou no quase. Bellucci teve começou excelente e segurou Lucas Pouille até perder o tiebreak do primeiro set. Rogerinho foi ainda mais surpreendente, tirou dois serviços e a série inicial de Milos Raonic antes de se render à experiência e poder de fogo do canadense.

Enquanto isso, Renzo Olivo completou sua incrível vitória sobre Jo-Wilfried Tsonga em plena central com absoluto controle dos nervos, Horacio Zeballos derrubou Ivo Karlovic com vitória em dois tiebreaks e Diego Schwartzman garantiu o direito de desafiar Novak Djokovic na sexta-feira. Sem falar que Juan Martin del Potro pode avançar ainda mais. Dá uma certa inveja, confesso.

Não se pode culpar Bellucci e menos ainda Rogerinho. O canhoto entrou decidido a dominar os pontos e deveria ter levado ao menos um set, já que teve 5/3 e saque. Pouille tem enorme talento e aos poucos se tranquilizou, usou curtas, paralelas e ótimos saques como um digno top 20.

Rogerinho encarou o saque, forçou devoluções e passadas, correu atrás de todos os pontos e perdeu nos detalhes. O final do jogo foi simbólico: Raonic teve paciência para a quebra, com sorte num lance na fita, e em seguida disparou nada menos que quatro aces seguidos.

Mas ainda temos direito de torcer para Thiago Monteiro e a ‘missão (quase) impossível’ frente Gael Monfils, além de nossos duplistas, que têm caminho cada vez mais aberto.

Favoritos
Mais um ‘script’ cumprido por Rafael Nadal. Aliás, tem sido divertido ver suas entrevistas que beiram a mesmice de suas vitórias tranquilas: ‘É um adversário perigoso’, profetiza ele, agora sobre Nikoloz Basilashvili.

Novak Djokovic mostrou gigantesca superioridade sobre João Sousa, mas ainda assim jogou raquete longe e reclamou da vida ainda que tenha cedido meros oito games. Diego Schwartzman é o primeiro adversário mais gabaritado antes de Pouille ou Albert Ramos e enfim Dominic Thiem ou David Goffin. O austríaco continua muito sólido e economizando energia.

No feminino, destaque para a arrasadora derrota de Ekaterina Makarova, que levou de Lesia Tsurenko idênticos 6/2 e 6/2 com que havia batido Angelique Kerber dois dias antes. Com isso, poderemos ter Samantha Stosur ou Mattek-Sands nas quartas.

Enquanto Carol Wozniacki aplicou ‘bicicleta’, Garbiñe Muguruza e Sveta Kuznetsova passaram apertado. Parecia que a atual campeã não ia achar um jeito de dobrar Annet Kontaveit, mas a estoniana amoleceu no terceiro set.

Surpresa acabou sendo a tunisiana Ons Jabeur ao despachar Dominika Cibulkova. Aos 22 anos e 114ª do ranking, Jabeur ganhou o juvenil de Roland Garros em 2011.

A quinta-feira
– Monteiro, que completou nesta quarta 23 anos, enfrentará o terceiro francês em seus três jogos de Slam (Tsonga e Muller os outros). Monfils acabou de completar 400 vitórias de primeira linha, 86 delas em Slam, mas esta foi sua primeira no saibro em toda a temporada.
– Klizan, o adversário de Murray, encerrou uma triste série de seis derrotas consecutivas em Slam. A última vez que o cabeça 1 caiu na segunda rodada de Paris foi com Agassi, em 2000.
– Wawrinka perdeu os dois jogos que fez contra Dolgopolov no saibro e também o mais recente, em Miami-2014.
– Nishikori e Chardy farão o oitavo duelo direto, com placar de 5-2 para o japonês. Em sete participações no torneio, Nishikori só ganhou 12 jogos.
– Del Potro venceu três dos quatro jogos feitos contra Almagro. O único sobre o saibro foi um challenger em 2006 e vencido pelo espanhol. Os dois têm histórico em Paris: Delpo chegou à semi e Almagro, três vezes às quartas.
– Trinta jogadores acima de 30 anos chegaram à segunda rodada de Roland Garros, três a mais do que em 2016. É recorde em Slam.
– Dos 19 franceses que iniciram o torneio, apenas seis passaram da estreia, pior marca desde 2005.
– Boa notícia para nossos duplistas: pela primeira vez desde 1968, os cabeças 1 e 2 não passaram da estreia em Paris.
– Svitolina tem na teoria um dos mais fáceis jogos de segunda rodada entre as meninas, já que pega Pironkova. Duelos interessantes: Suárez x Cirstea e Strycova x Cornet.

Velhos guerreiros
Por José Nilton Dalcim
29 de maio de 2017 às 19:22

Nem Rafael Nadal, nem Novak Djokovic. O segundo dia de Roland Garros pertenceu a velhos guerreiros. O heróico Rogerinho Silva, o incansável David Ferrer, o resiliente Victor Estrella e até mesmo o elétrico Fabio Fognini deram um show no saibro francês e mostraram por que jogos de cinco sets são tão empolgantes.

Rogerinho merece destaque mais que especial. Entrou em quadra sem saber como conseguiria encarar o tênis vigoroso e agressivo de Mikhail Youzhny, vindo de torção feia no pé dias atrás. Foi dominado, reagiu e aí voltou a pisar em falso, em lance aliás parecido com Genebra. Até o russo achou que ele iria desistir após jogar muito mal três games, mas Youzhny não conhece esse garoto de 33 anos.

Nem mesmo quando encarou uma quebra logo no começo do quarto set Rogerinho amoleceu. Continuou brigando. Vieram dois match-points no serviço do adversário, dois games muito tensos e a partir do tiebreak foi o brasileiro quem mandou na partida. Fechou após esforço de 4h11 diante de um ex-top 10 com 10 ATPs no currículo. Que espetáculo. Pelo segundo Grand Slam consecutivo, ele marcou uma vitória. Para muitos, pode parecer pouco. Quem conhece sua trajetória, aplaude.

Ferrer vive um de seus piores momentos, beirando a aposentadoria. Mas como luta. Esteve duas vezes atrás do placar contra Donald Young e foi ganhar num set de 24 games, debaixo de garoa. Estrella, 36 anos, nem sequer é jogador de saibro. Anotou virada após dois sets atrás de Teimuraz Gabashvili. E Fognini arrastou multidão para a arquibancada no duelo de gerações diante de Frances Tiafoe. O quinto set diz tudo: 6/0, mil reclamações, palavrões e caretas depois. O público foi à loucura.

E sobre os favoritos? Rafa Nadal fez um segundo set instável contra Benoit Paire e deu sorte quando o francês teve break-point para 5/3. Claro que isso nada mudaria a história final do jogo, que foi um tanto sem graça depois que o francês passou a ter dores abdominais. Como provavelmente não será diferente o duelo contra Robin Haase.

Já a maior atenção na estreia de Nole estava na plateia, um tanto tímido. Andre Agassi foi cumprimentado até por Boris Becker e conversou o tempo todo com o irmão Marko. Na quadra, o cabeça 2 segurou Marcel Granollers no fundo e isso deveria render uma vitória fulminante, mas vimos o sérvio perder cinco dos seus 14 games de serviço. Demonstrou estar irritado com os erros, pareceu reclamar até da camiseta do novo patrocinador. Talvez seja apenas a pressão da estreia. Talvez. Agora, vem João Sousa. Outro jogo que não pode ter sustos.

Longe dos holofotes, o belga David Goffin atropelou Paul-Henri Mathieu e os números chamam a atenção: 37 winners e apenas 10 erros nos três sets. Como eu previra, Fernando Verdasco está sendo um perigoso adversário para Alexander Zverev, que terá de ganhar mais dois sets na retomada desta terça-feira.

A chave feminina teve dois momentos importantes. A estreia exigente da campeã Garbiñe Muguruza, que se saiu muito bem diante de uma adversária que conhece muito bem a Philippe Chatrier. Ainda que cometesse falhas aqui ou ali, a espanhola achou os atalhos para superar Francesca Schiavone. A italiana aliás deu a entender que pode adiar a despedida das quadras para 2018.

Depois das lágrimas de Petra Kvitova, vieram as de Kiki Mladenovic. A mais tarimbada das francesas lutou até o fim apesar de sentir contusão na lombar e de ter ficado uma quebra atrás no terceiro set. Karolina Pliskova avançou contra a chinesa Saisai Zheng, em partida em que sacar valeu pouco.

E Bia Haddad? Pena que demorou a pegar o ritmo, o que deu larga vantagem para a experiente Elena Vesnina. Aos poucos, a canhota parou de ‘rifar’ as bolas, ficou mais consistente e aí deu trabalho à número 15 do ranking. Importante notar a diferença de bola dessas meninas tops: profundas, agressivas, sufocantes. Não é nada fácil jogar num nível tão alto e de tamanha intensidade. Assim, apesar da natural derrota, foi muito bom ver que Bia está bem encaminhada. Dá para acreditar que sua próxima vez em Roland Garros será bem diferente.

P.S.: Com as vitórias de Rogerinho e Thomaz Bellucci e o favoritismo de Thiago Monteiro sobre o convidado francês Alexandre Muller, o tênis brasileiro poderá ter três jogadores numa segunda rodada de Grand Slam pela primeira vez desde Wimbledon de 2003. E em Paris, desde 2002.