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La Decima a gente nunca esquece
Por José Nilton Dalcim
11 de junho de 2017 às 21:10

Claro que a comemoração tem de ser em cima de uma façanha das mais incríveis da história não do tênis, mas do esporte: 10 troféus num mesmo Grand Slam, 10 conquistas em 13 possíveis, e olha que dessas três houve uma delas em que nem foi realmente derrotado.

Mas o que me fez ficar pensando hoje, depois de vermos Rafael Nadal vencer todos os sets disputados com média de cinco games perdidos por partida em Roland Garros, é como o espanhol se reinventou e se reergueu pela terceira vez em sua carreira.

Não é uma coisa fácil de acontecer no esporte de alto rendimento, considerando-se ainda seu estilo que exige tanta doação em quadra. Nadal repete nesta temporada aquilo que vimos em 2010 e 2013, quando renasceu após passar momentos de descrédito e pressão.

A cada vez, achou um caminho. Ora o saque, ora o slice, ora o backhand, trabalhou nos elementos que poderiam agregar e raramente usou discurso negativo nas frustrações. Cansou de dizer que ainda acreditava que poderia reagir, agradeceu porque haveria uma próxima semana. Duvidaram uma vez, duvidaram duas e duvidaram de novo.

A resposta veio. Encerrou 2016 mais cedo para alongar a pré-temporada, contratou Carlos Moyá. Fez um Australian Open surpreendente, em que esteve a três games de um título improvável, engoliu mais dois vices na quadra sintética e aguardou o retorno ao saibro europeu, seu habitat natural e eterno ganha-pão, para enfim rever a glória. E o fez com superlativos crescentes.

Quando chegou ao 10º título em Monte Carlo e encerrou o jejum, se transformou no favorito natural a Roland Garros, ainda mais diante da crise de Novak Djokovic e da queda de Andy Murray. Mais um 10º em Barcelona, o penta em Madri… Não fosse a derrota nas quartas de Roma em que havia muito de esgotamento, ele teria faturado tudo sobre o saibro, e superado até mesmo a série inacreditável de 2010, quando ganhou Paris e os três Masters do saibro.

‘La Decima’ talvez criasse pressão sobre qualquer outro tenista. Para Rafa, pareceu o tempo todo ser acima de tudo motivação. Disputou cada partida com intensa aplicação tática, correu atrás de bolas difíceis mesmo quando o placar lhe dava folga. Na final deste domingo contra Stan Wawrinka, vibrou com punho cerrado no primeiro ponto do jogo! Não dá para imaginar um tenista mais determinado.

Rafa encerra a primeira metade da temporada com 6.915 pontos em 10 torneios jogados. Isso lhe dá não apenas o direito matemático de lutar pelo número 1 do mundo, quem sabe já ao término de Wimbledon, mas o torna o maior candidato à liderança ao final do calendário. Aproveitou o saibro para abrir quase 3 mil pontos sobre Roger Federer. Soma mais do que Wawrinka e Dominic Thiem juntos.

Guardo para amanhã uma lista dos maiores feitos de Nadal em sua fabulosa carreira. Afinal, é preciso de muito espaço para quantificar o tamanho de seu tênis.

P.S.: Não, não esqueci da extraordinária vitória de Jelena Ostapenko no sábado. Mas deixo aqui o direcionamento para o blog de Mário Sérgio Cruz, que fez um texto completíssimo dessa letã de 20 anos e tanto futuro.

Mais um suíço no caminho de Nadal
Por José Nilton Dalcim
9 de junho de 2017 às 16:54

Pela experiência, ousadia e capacidade técnica inquestionável, era um tanto óbvio que o único tenista com condições de oferecer resistência e colocar alguma dúvida sobre o 10º título de Rafael Nadal em Roland Garros era Stan Wawrinka.

Então teremos a meu ver a melhor final possível para o Grand Slam da terra. Que, ainda por cima, irá valer o número 2 do ranking para o vencedor. Se isso não é lá novidade para Nadal, duvido que não seja uma surpresa até para ele próprio se pensarmos lá no começo da temporada, em que pouco se apostava em uma nova reação do espanhol.

Wawrinka por seu lado tem uma oportunidade única na carreira. Além do ranking inédito, poderá chegar ao quarto Grand Slam – o terceiro depois dos 30 anos, algo que nem Roger Federer conseguiu até agora – e principalmente se tornar o único a derrotar Nadal numa final em Paris. Seria uma das maiores façanhas da Era Profissional.

Os finalistas passaram por esforços antagônicos nesta sexta-feira. Wawrinka liderou o primeiro set e teve chance de ganhar o tiebreak antes de reagir na segunda parcial. Mas até então o jogo estava bem morno, com muitos erros e más escolhas. O jogo começou a esquentar no terceiro set menos pela qualidade e mais pela alternância. De novo, o suíço abriu vantagem (3/0, 4/2) e não capitalizou.

Ou seja, uma partida que poderia estar 3 sets a 0 para ele de repente foi para um perigoso quarto set. Foi o momento de melhor nível do jogo. Tenso, equilibrado, ótimos lances, nenhum break-point. Então ressurgiu o Stanimal. A partir do oitavo ponto do tiebreak, foi aquele suílo espetacular a ponto de sufocar o número 1, que só conseguiu mesmo escapar do ‘pneu’. O esforço físico e mental durou 4h35.

Nadal, ao contrário, justificou a esperada soberania sobre Dominic Thiem, e com sobras. O austríaco cometeu o pecado mortal de não aproveitar um raro início sonolento do espanhol. Desperdiçou a quebra obtida no primeiro game, jogou fora dois 15-40 seguidos e aí é pedir demais. Nadal ganhou confiança pouco a pouco, fez o adversário jogar o tempo inteiro e raramente deu novas brechas, com exceção a dois break-points no comecinho do segundo set.

Thiem começou jogando perto da linha, tanto na devolução como nas trocas, mas não achou o caminho, um tanto afoito. Aí recuou e tentou entrar mais nos pontos, porém a necessidade de definir os lances rapidamente o levou a buscar as linhas em demasia. E sem a confiança essencial, isso é tarefa quase impossível, ainda mais contra Nadal. Seu backhand, ainda pouco sólido, foi surrado.

O que pode fazer Wawrinka de diferente se tem uma postura tática e técnica um tanto semelhante a Thiem? Ah, muito. Antes de qualquer coisa, o backhand é muito mais consistente e pode explorar a paralela, algo que o austríaco raramente conseguiu hoje. E provavelmente não baixará a cabeça como Thiem fez tão cedo na partida.

Ainda assim, mais descansado, Nadal entrará como o grande favorito, apoiado no largo histórico de 15 a 3 no geral e de 5 a 1 no saibro. Será que dá tempo de construir a estátua e deixá-la pronta para inaugurar em 48 horas?

Patinho feio
Por José Nilton Dalcim
8 de junho de 2017 às 20:15

Dominic Thiem é o ‘patinho feio’ das semifinais de Roland Garros. Único que não está na faixa dos 30 anos, que não figura no top 5, que jamais ganhou um título de Grand Slam, que nunca fez uma final em Roland Garros.

Vejamos os pontos mais importantes sobre as duas semifinais.

Andy Murray x Stan Wawrinka
Repetem a semifinal do ano passado, vencida já com alguma surpresa pelo britânico em quatro sets. Murray tem 10 a 7 nos duelos (3 a 2 em Slam), mas suíço lidera por 3 a 1 no saibro.

Ambos têm três troféus de Slam na carreira. Murray vem de vitórias sobre Nishikori e Del Potro, Stan passou por Fognini, Monfils e Cilic.

– Caso vença, Murray será apenas o sétimo jogador da Era Profissional a ter pelo menos duas finais em cada um dos Slam. Faria nobre companhia assim a Agassi, Djokovic, Federer, Lendl, Nadal e Rosewall.
– Aos 32 anos e 75 dias, Wawrinka pode se tornar o mais velho finalista em Paris desde Niki Pilic, que tinha 33 anos e 280 dias em 1973.
– Murray tenta 12ª final de Slam e assim poderá ficar à frente de Edberg, McEnroe e Wilander, que somam 11.
– Em 18 duelos contra top 5 no saibro, Murray só ganhou 5.
– Todas as vezes que Wawrinka derrotou um número 1 do ranking foram em finais de Slam: Nadal (Austrália-2104) e Djokovic (Paris-2015 e US Open-2016).

Rafael Nadal x Dominic Thiem
Irão se reencontrar pela quarta vez no saibro europeu nesta temporada, com vitórias de Rafa nas finais de Barcelona e Madri e de Thiem nas quartas de Roma.

Os dois somam exatamente 22 vitórias na terra em 2017. Nenhum deles perdeu set no torneio até agora. Placar geral é de 4 a 2 para Nadal, com todos os jogos no saibro.

– Nadal tenta se tornar o terceiro tenista em todos os tempos a disputar 10 finais num mesmo Slam e assim repetir Federer (Wimbledon) e Tilden (US Open).
– Aos 23 anos e 281 dias, Thiem pode ser o mais jovem finalista de Roland Garros desde o próprio Nadal, em 2008, quando tinha 22 anos e 5 dias.
– Nadal disputa sua 80ª partida em Roland Garros, com 77 vitórias. Nunca perdeu uma semifinal em Paris.
– Thiem pode se tornar apenas o terceiro homem a ganhar de Nadal no saibro por três vezes, repetindo Djokovic (7) e Gaudio (3).
– Espanhol pode se isolar no segundo lugar de finais de Slam na Era Aberta, com 22, atrás somente de Federer (28).
– Único austríaco a chegar numa final de Slam foi Muster (campeão em Paris-1995).

Feminino: expectativa
A chegada da experiente Simona Halep e da debutante Jelena Ostapenko à final de Roland Garros deixa muita expectativa para a partida de 10 horas de sábado. São duas tenistas que gostam de bater na bola e procuram sempre comandar o ponto, o que deve garantir um belo duelo. A menos que os nervos atrapalhem, como aconteceu nas semifinais.

Ostapenko certamente tem um jogo mais vistoso do que o da suíça Timea Bacsinszky, mas não soube traduzir isso na maior parte do tempo da semifinal. A tensão foi muito grande, 16 quebras, poucos serviços mantidos sem esforço e intensos altos e baixos. Conservadora, a suíça perdeu com apenas 16 erros, quase três vezes menos do que a letã.

Já Halep e Pliskova arriscaram mais, mas perderam apenas cinco serviços. Lutadora, a romena terminou com 14 winners frente a 45, porém 14 falhas frente 55. Dá facilmente para perceber o quanto Pliskova forçou o jogo, que é sua característica, e como Halep se defendeu.

Ostapenko tenta um feito: se tornar a tenista de mais baixo ranking e a única não cabeça a ganhar Roland Garros, aos 20 anos e sem nenhum outro troféu de primeira linha no currículo. Exatamente como Guga fez a 8 de junho em 1997, data em que a letã nasceu. Já Halep sonha com seu primeiro troféu de Slam e o número 1 do ranking. Não poderia ter maior chance.

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